Uma adega em que os vinhos não são organizados apenas por uvas ou safras, mas pelos momentos da vida que podem acompanhar. Essa é a proposta do ambiente criado pela designer de interiores Eliene Lucindo para a CASACOR Brasília 2026. Em sua terceira participação consecutiva na mostra, a profissional transformou 28 m² em um espaço pensado para desacelerar o visitante e aproximar arquitetura, memória e emoção, com iluminação intimista, materiais naturais e uma curadoria emocional dos rótulos.
O projeto foi apresentado em mais uma edição especial do JBr Talks, comandado pelo jornalista Marcelo Chaves diretamente da mostra. Designer de interiores, estrategista de marcas e pesquisadora de psicoarquitetura e neurodesign, Eliene partiu da própria história do vinho para construir a narrativa do ambiente. O ponto inicial veio da parceria com a Vinícola São Patrício e do estudo sobre os processos de produção e amadurecimento da bebida.
“O vinho vai melhorando e se transformando com o tempo. Ele é um ser vivo”, explicou. A partir daí, materiais como madeira, couro e mármore foram escolhidos justamente pela capacidade de também registrar a passagem dos anos. “Eu quis trazer, na escolha dos materiais, um ambiente que também contasse essa materialidade do tempo. […] Eles também trabalham, são vivos e contam histórias ao longo dos processos”, acrescentou.
Um convite para desacelerar
Mais do que expor garrafas, a proposta busca responder a um comportamento que Eliene diz observar em escala global: o cansaço provocado pelo excesso de estímulos. Redes sociais, telas e informações constantes entraram na equação para pensar um lugar que caminhasse na direção contrária.
“Nós temos hoje um movimento que está começando a se manifestar globalmente, que é uma desaceleração. As pessoas estão muito esgotadas dos estímulos, tanto os visuais como os das redes sociais, que são infinitos”, afirmou a designer durante a entrevista.
Por isso, iluminação, temperatura e som foram planejados para diminuir interferências e favorecer a permanência. Aromas, por exemplo, ficaram de fora propositalmente para não interferir na percepção dos vinhos. O visitante pode apenas conhecer o ambiente, permanecer por mais tempo, degustar um rótulo ou comprá-lo.
É nesse conjunto que aparece um dos conceitos centrais do trabalho de Eliene: a chamada “arquitetura da presença”. Para a profissional, projetar um espaço dessa forma significa criar condições para que a pessoa não apenas observe o que está ao redor, mas perceba também como se sente naquele lugar.
“Projetar para a presença significa conexão, de forma muito lúdica e inconsciente, de cada pessoa. Aqueles espaços onde você se sente à vontade, protegido, seguro e olhando para você, olhando para dentro”, explicou.
Vinho para cada momento
Talvez o elemento que melhor traduza essa ideia esteja nas próprias garrafas. Em vez de uma organização limitada às características tradicionais da bebida, a adega apresenta uma espécie de curadoria emocional dos vinhos. Pequenos bilhetes associados aos rótulos sugerem momentos e sentimentos capazes de dialogar com quem passa pelo espaço.
Há referências a um novo amor, um novo trabalho, despedidas, conversas difíceis e até aquelas noites que “merecem durar mais”. A pergunta deixa de ser somente qual vinho escolher e passa a ser outra: por que abrir aquela garrafa justamente naquele momento?
“A ideia é que a pessoa se conecte com o espaço, com o vinho e com aquele momento que ela quer viver, porque isso vai trazer estado de felicidade e conexão instantânea”, explicou Eliene.
A proposta também procura retirar da bebida a obrigação de estar associada apenas à sofisticação, ao colecionismo ou à alta gastronomia. Para a designer, o vinho pode ser compreendido pela experiência e pelas memórias construídas ao redor dele. “Eu quis trazer o vinho não com esses rótulos que ele já tem, mas como: ‘Por que eu vou abrir essa garrafa hoje?’”, resumiu.
28 metros quadrados de experiência
Criar diferentes camadas de experiência em apenas 28 m² foi um dos desafios do projeto. O ambiente reúne mármore, madeira em tons profundos, couro, metais escovados e iluminação cênica. Ao mesmo tempo em que integra a exposição, o espaço funciona como ponto de comercialização dos vinhos mas sem assumir visualmente a aparência convencional de uma loja.
A iluminação tem papel especialmente importante nessa construção. No fim da tarde, parte das luzes pode ser reduzida para modificar a percepção do visitante e marcar uma passagem entre a agitação externa e o ritmo proposto pela adega.
“Tem o momento do dia em que a gente abaixa as luzes e faz esse convite de desacelerar e estar presente com presença”, contou. Para Eliene, a mudança ajuda a afastar, ainda que temporariamente, a sensação de urgência que acompanha a rotina do lado de fora.
O projeto ainda incorpora arte e referências ao Cerrado e a Brasília. Entre os destaques estão esculturas de Sandra Barreiro e uma criação autoral de Eliene, desenvolvida originalmente como tapete e apresentada na mostra também como obra de arte. Na composição, a profissional buscou representar elementos como o céu de Brasília, o pôr do sol, os tons terrosos do Cerrado e as formas dos monumentos da capital.
Mente e coração
As escolhas dialogam com o tema da CASACOR deste ano, “Mente e Coração”. No ambiente, a relação aparece não apenas nos elementos visuais, mas na tentativa de provocar sensações por meio da materialidade, iluminação, texturas e sons.
“A arquitetura comunica através do seu design, da materialidade, da iluminação, das texturas, do som, dos aromas”, explicou Eliene. Segundo ela, colocar-se no lugar de quem chega ao ambiente faz parte do processo: “Como eu gostaria de me sentir entrando nesse espaço?”.
Depois de três participações consecutivas na CASACOR Brasília, a designer também associa o ambiente ao próprio momento profissional. Questionada por Marcelo Chaves sobre qual fase da vida a adega representaria caso fosse um vinho, Eliene escolheu a maturidade.
“Esse momento de apresentação ao público, porque ele soube crescer, ser colhido, passar pelo processo, pelas barricas, pela guarda na garrafa e agora pode ser apreciado com maturidade”, afirmou.
Para ela, essa maturidade também representa uma forma diferente de encarar o trabalho e os espaços: observar e escutar mais antes de criar. Depois da espera, dos processos e das transformações, veio a hora de abrir a garrafa. “Eu penso que é essa maturidade. É a hora de beber”, concluiu.