O presidente Lula atravessa um daqueles momentos em que a diplomacia deixa de ser retórica e passa a definir destinos. A guerra que opõe Israel e Estados Unidos ao Irã não é apenas um conflito regional com efeitos globais. Para o Brasil, é um teste de coerência, pragmatismo e sobrevivência política.
O Planalto reagiu aos bombardeios com uma nota de cautela cirúrgica. Condenou a escalada militar, pediu respeito ao direito internacional e defendeu a via diplomática. Nada além disso. Nada que comprometesse. Nada que encerrasse a questão. Não há, até o momento, posição terminativa do governo brasileiro sobre o conflito. Trata-se de uma escolha calculada.
Esse teste acontece no momento em que o Brasil aguarda a definição para a data para a visita de Lula ao presidente Donald Trump, em meio a uma tentativa de recompor relações comerciais, derrubar tarifas e restabelecer canais tensionados por divergências ideológicas e estratégicas.
Lula conhece esse terreno. Já foi testado em crises internacionais delicadas. Em 2010, tentou mediar o impasse nuclear iraniano ao lado da Turquia, num movimento que desagradou Washington, mas projetou o Brasil como ator diplomático relevante. Em outras ocasiões, navegou entre interesses antagônicos sem romper pontes definitivas. Sua marca sempre foi a de ampliar margens de negociação, mesmo sob pressão.
Agora, porém, a saia é mais justa. Um eventual posicionamento frontalmente contrário aos Estados Unidos, alinhando-se às críticas feitas por Rússia e China, parceiros estratégicos do Brasil no comércio e no BRICS, pode agradar parte da base histórica do PT. Mas, por outro lado, tende a custar caro na mesa das tarifas e, por consequência, no humor do mercado e no bolso do eleitor.
Junte-se a este risco a decisão do governo israelense que declarou Lula persona no grata, depois que o presidente brasileiro comparou as operações militares de Israel na Faixa de Gaza ao Holocausto cometido por Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial.
Mas tudo isso seria perfumaria se não existisse o fator eleitoral brasileiro.
Com o principal adversário de Lula na sucessão, Flávio Bolsonaro, apresentando números que indicam reação competitiva da direita, um retrocesso nas relações comerciais com os Estados Unidos, seja por tarifas mantidas, seja por retaliações indiretas, que teriam impacto imediato sobre setores produtivos sensíveis. Impacto econômico, em ano eleitoral, é sinônimo de desgaste político.
O dilema é claro. Manter a coerência histórica ou preservar interesses comerciais imediatos. A resposta, para Lula, talvez esteja menos na escolha de um lado e mais na forma de construir a narrativa.
Não se trata de coragem ou covardia. Trata-se de cálculo. Mas cálculo também pode ser interpretado como hesitação. E hesitação, em cenário polarizado, vira alvo fácil.
O presidente que já foi capaz de dialogar com Washington e Teerã ao mesmo tempo agora se vê diante de um tabuleiro mais estreito. A diferença é que, desta vez, a equação externa está diretamente conectada à urna.
Se Lula optar por um alinhamento mais duro contra a ação militar liderada pelos Estados Unidos, reforçará sua coerência histórica, mas tensionará a visita a Trump e as negociações tarifárias. Se suavizar o discurso para preservar a agenda comercial, poderá ser acusado de incoerência por sua base e oferecer munição à oposição.
Na matemática eleitoral, está claro que a vitória de um dos lados e disputa em 2026 será pela distância de um nariz. Cabeça com cabeça até o final. Portanto, qualquer opção que não agregue votos novos aos votos consolidados do eleitorado para o petista, resultará em perda que será contabilizada em dobro.
Entre convicção ideológica e pragmatismo eleitoral, o presidente caminha sobre o fio de uma navalha. A nota cautelosa foi apenas o primeiro passo. O mundo aguarda. O mercado observa. A oposição contabiliza. E o Brasil, como tantas vezes na história recente, descobre que política externa nunca é apenas externa, sobretudo quando a guerra lá fora pode decidir a eleição aqui dentro.