Os rodoviários das empresas privadas desistiram da greve, depois de duas semanas de paralisações parciais. Aceitaram um reajuste salarial de 9,86%, suficiente para cobrir as perdas com a inflação. Mas agora são os empregados da TCB, a estatal do transporte coletivo, que estão em greve, reivindicando 30% de aumento salarial e 54% de reajuste do auxílio-alimentação.
São reivindicações fora da realidade do país e de um governo sem recursos, enquadrado no limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal e com carências enormes em setores fundamentais para a população, como saúde, educação e segurança.
Reivindicar 30% de aumento salarial é irreal, na verdade, em qualquer situação. Ainda mais no quadro atual de crise econômica e financeira e desemprego elevado.
A TCB, que já foi a grande empresa de ônibus de Brasília e sofreu sucateamento deliberado para abrir espaço às concessionárias privadas, tem 34 veículos e opera 12 linhas. Se for extinta, ninguém vai notar, infelizmente.
Em que realidade vivem seus funcionários?
Quem se candidata?
Um motorista da TCB ganha em média R$ 2,7 mil. Um cobrador, função arcaica que ainda existe em Brasília porque os governantes têm medo das reações contrárias, recebe mensalmente, em média, R$ 1,7 mil. O auxílio alimentação é de R$ 860. A TCB tem 180 funcionários.
Em Brasília há cerca de 300 mil desempregados. Os funcionários da TCB sabem disso?
Por que não para todos?
Embora tente a passar a ideia de que o reajuste dos rodoviários é uma questão entre eles e as empresas em que trabalham, é o governo que autoriza o aumento salarial da categoria. Isso porque qualquer aumento de despesas com pessoal é coberto por um aumento da tarifa técnica, o subsídio que o Estado dá às concessionárias.
O governo se contradiz, em tese, ao concordar em que seja dado 9,86% aos rodoviários e negar o mesmo aos trabalhadores da TCB e do Metrô. É certo que o aumento dos rodoviários “privados” não incide na Lei de Responsabilidade Fiscal, mas vai subir, a partir de setembro, o valor do subsídio mensal.
A preocupação do governo não pode ser só com a LRF, tem de ser principalmente com o escasso dinheiro público. Aumentar a tarifa técnica para atender aos rodoviários só aumenta o rombo.
Quem avisa, amigo é
O governador Rodrigo Rollemberg vem sendo avisado, desde praticamente o início de seu governo, de que o metrô ainda pode lhe causar grandes dissabores. A empresa dá um enorme prejuízo por causa dos altíssimos custos e os problemas com a operação e a manutenção são muitos. O fluxo de 160 mil passageiros já poderia ter dobrado.
As anunciadas possibilidades de expansão do metrô são quase nulas, pela falta de recursos e de viabilidade econômica. Nem projetos que não exigem gastos do governo conseguem avançar.
Na administração pública, não bastam boas intenções, disposição de trabalho e marquetagem. Tem de ter conhecimento e competência.
Reguffe não gastou nem os R$ 169
Esta coluna cometeu um erro por confiar em fonte secundária. Publicamos que o senador José Antônio Reguffe (foto) gastou R$ 169 da verba indenizatória, mas ele não gastou um só centavo. Os R$ 169 são referentes a outra verba, a de material de escritório, e foram gastos com a compra de água mineral.
Uma crítica que não se pode fazer a Reguffe é de ele não cumprir o que promete. O fim das verbas indenizatórias é uma de suas bandeiras desde os tempos de deputado distrital. Coerentemente, ele não recebe a excrescência legal inventada para aumentar indiretamente a renda dos parlamentares.
Já outros pretensos arautos da moralidade pública não abrem mão da boquinha.
Para tristeza dos suplentes
Exatamente porque Reguffe cumpre seus compromissos é que se pode assegurar que ele não será candidato ao governo de Brasília. O senador já disse mais de uma vez que foi eleito para um mandato de oito anos e pretende cumpri-lo.
Reguffe defende também a tese de que ao assumirem um posto no Executivo os parlamentares deveriam renunciar ao mandato. Seria um grande dilema para alguns. Os salários no Executivo são menores, mas as verbas que podem ser manipuladas são bem maiores. Embora sempre haja a possibilidade de colocar um laranja no ministério ou na secretaria.
Cômodo, mas ineficiente
Manuais podem ser importantes, desde que suas normas e recomendações sejam seguidas com inteligência – o que significa saber adaptá-las a cada situação concreta, levando em conta as circunstâncias, o momento, o ambiente, o humor das pessoas e outros fatores.
Aplicar manuais automaticamente, ao pé da letra, é burrice. Ainda mais se forem manuais da velha política, com seus desdobramentos: o jeito velho de comunicar, o velho marketing de enganação, o velho estilo de decidir, a velha forma de administrar e por aí vai.
Seguir o manual que ficou velho em um momento como o que vivemos é, no máximo, o mesmo do mesmo. Se não for o menos do mesmo.