Da vergonha e do escândalo para a fama e a glória em um mês. Nunca as duas faces do futebol italiano foram tão contrastantes como durante a Copa do Mundo deste ano.
Enquanto os promotores e os advogados de defesa se embrenhavam nos detalhes do escândalo de manipulação de jogos do Campeonato Italiano, a seleção exibia o melhor lembrete da razão por que, apesar de tudo, seu futebol é tão respeitado.
A técnica, o estilo, a disciplina e a paixão do time de Marcello Lippi demonstraram o melhor do futebol italiano e mereceram os elogios, coroados com o triunfo sobre a França nos pênaltis na final de domingo.
Mas na Itália, diretores de clubes, árbitros e funcionários da federação de futebol encaram acusações em um tribunal disciplinar em que quatro clubes da primeira divisão podem sofrer rebaixamento se forem considerados culpados de tentar influenciar o resultado de jogos interferindo na escolha dos árbitros.
O sucesso da Itália na Copa do Mundo não apaga o que foi revelado sobre as falcatruas de anos recentes, mas o escândalo tampouco diminui em nada a conquista da Azzurra na Alemanha. O que a seleção de Lippi conseguiu é ainda mais notável dadas as condições em que tiveram que atuar.
Desde o momento em que o time se reuniu em seu requintado centro de treinamento perto de Florença, onde de acordo com as transcrições de telefonemas alguns dos acordos s ob investigação foram fechados, os jogadores tiveram que lidar com os respingos do escândalo.
Houve pedidos para que Lippi se demitisse quando seu filho foi envolvido na investigação e para que o capitão Fabio Cannavaro fosse destituído depois que ele defendeu publicamente o ex-chefe da Juventus Luciano Moggi, que está no centro do escândalo.
O goleiro Gianluigi Buffon teve até que abandonar a concentração para conversar com um magistrado sobre suas apostas em jogos no exterior. Em toda coletiva de imprensa se mencionava o escândalo, mas assim que a Azzurra chegou à Alemanha, Lippi pediu que a atenção fosse concentrada em seu time e seu trabalho no Mundial, o que não aconteceu.
UNIÃO DA EQUIPE
Depois de semanas insistindo que seus jogadores não estavam sendo afetados pelo escândalo em casa, Lippi disse logo após a vitória sobre a Alemanha na semifinal que o caso na verdade tornou seu time mais unido.
"Claro que, no começo, toda a confusão que surgiu dois ou três meses atrás criou um desejo de reagir, mostrar que o futebol italiano é eficiente, verdadeiro, e forte técnico e moralmente. Isso ajudou a criar um grupo unido", disse ele.
Obviamente havia ressentimento entre os jogadores porque eles, que nunca foram acusados de envolvimento no escândalo, não mereciam ser vistos como culpados por associação.
"Todas as vezes em que entrei em campo eu suei a camisa e dei tudo de mim", disse o volante Gennaro Gattuso quando indagado sobre o escândalo. Gattuso estava entre aqueles que rejeitaram os pedidos de alguns políticos para que a vitória na Copa do Mundo fosse recompensada com uma anistia dos acusados.
O desempenho dos jogadores italianos no torneio certamente demonstrou que eles mereciam algo melhor daqueles que controlam o esporte na Itália.