Os emaranhados caminhos do futebol fazem mais uma vez Inter, Corinthians, Tite, Mano Menezes, entre outros, se cruzarem. Desta vez na final da Copa do Brasil. A primeira parte desse encontro ocorreu em 17 de junho. Os paulistas do gaúcho Mano Menezes levaram a melhor, vencendo por 2 a 0. Nesta quarta-feira, serão percorridos os metros finais desta estrada.
Gaúchos no comando – Os principais nomes desta batalha da bola são velhos conhecidos. Ambos nasceram no Rio Grande do Sul. Suas trajetórias profissionais são bem semelhantes.
Com a carreira de jogador abreviada devido a uma lesão no joelho, Adenor Leonardo Bachi, o Tite, foi para os bancos universitários cursar educação física. Começou a carreira de treinador no interior gaúcho. Ganhou destaque no Caxias, onde foi campeão Estadual em 2000. No ano seguinte, assumiu o Grêmio, onde conquistou o Gauchão e a Copa do Brasil de 2001, enfrentando o Corinthians na final.
Após ter feito a alegria do lado azul do Estado, Tite partiu para o futebol paulista. Depois de comandar o São Caetano, o Timão apareceu mais uma vez na sua vida. Agora, oferecendo-lhe o cargo de técnico. O caxiense assumiu o time alvinegro na parte de baixo da tabela do Campeonato Brasileiro. Terminou a competição com um honroso quinto lugar. No ano seguinte, Tite foi uma das vítimas da confusa parceria com a MSI, sendo demitido no começo de março.
Enquanto isso, Luiz Antônio Venker Menezes, o Mano Menezes, começava a dar seus primeiros passos firmes na profissão. Formado em administração e educação física, Mano teve passagem pelas categorias de base do, hoje rival, Inter. No cenário nacional, ele despontou em 2004, quando levou o modesto 15 de Novembro até a semifinal da Copa do Brasil. De lá, subiu a Serra chegando ao Caxias. O próximo passo foi o mesmo de Tite: assumir o Grêmio.
No Tricolor, Mano tinha em suas mãos uma missão que, se não fosse cumprida, poderia abalar sua carreira para sempre. Porém, com a competência que acompanha os vencedores, ele conseguiu levar o Grêmio de novo para a elite do futebol brasileiro. Novamente entre os grandes, ele chegou em terceiro no Brasileiro de 2006 e foi vice da América no ano seguinte, levando o clube a uma ascensão meteórica.
Tite e Mano possuem as mesmas origens, mas o técnico colorado ressalta. “A escola é a mesma, mas as filosofias são diferentes”.
Apesar do treinador do Inter ver jeitos distintos de analisar o futebol entre eles, as opiniões sobre a decisão da Copa do Brasil são bem semelhantes. “Havia 64 times na Copa do Brasil e só sobraram dois. Isso é fruto do nosso trabalho”, orgulha-se Mano. No Beira-Rio, o tom é parecido. “De 64, só dois chegaram. Imagina quanto olho brilhando tem por aí? Quer mais motivação do que isso? Mas é hora do equilíbrio”.
Os donos do espetáculo trocam de camisas – Dentro de campo, as estradas futebolísticas já se cruzaram diversas vezes. São companheiros e ex-companheiros, rivais contra futuros aliados.
O caso mais notório é o de Nilmar. O veloz atacante foi o centro de um grande imbróglio envolvendo o Corinthians e a finada MSI. A passagem do jogador, revelado pelo Inter, no Parque São Jorge foi marcada por gols, título brasileiro, graves lesões e muita confusão fora de campo. Afinal, a quem pertencia o “passe” do jogador?
Contratado junto ao Lyon, o atacante conseguiu ficar com seus direitos federativos após impasse entre a parceira corintiana e o clube francês. Esperando o momento certo de agir, o Inter atacou. A ação foi precisa e Nilmar retornou para suas origens. “Deu coincidência que contra o Inter aconteceu aquela polêmica de arbitragem (em 2005). Sempre tive a responsabilidade. Desde a minha volta, com aquela confusão toda, estou acostumado. Tenho que mostrar o meu potencial”, comentou o atacante, já vislumbrando a decisão de quarta-feira.
Outros colorados já estiveram do lado de lá dessa final. O lateral Kléber foi campeão Mundial com o Corinthians e o volante Magrão teve identificação total com a Fiel.
No lado do alvinegro do confronto, um jogador defendeu o Inter. O centroavante Souza, reserva de Ronaldo, vestiu a camisa colorada em 2005. Sua passagem não empolgou, mas ficará marcada. O centroavante foi decisivo, indo às redes e dando o Gaúcho de 2005 para os colorados, em uma suada final na prorrogação contra o 15 de Novembro.
Entre os clubes, rivalidade acirrada nos últimos anos – A rivalidade entre os dois clubes é longa. Porém, nos últimos anos ela acirrou-se. De dois gigantes do futebol do país que se respeitavam, surgiram desavenças, divergências, defesas de causas próprias. O resultado fez o duelo de quarta-feira esquentar fora de campo.
A primeira decisão envolvendo Inter e Corinthians ocorreu no Campeonato Brasileiro de 1976, ano do bi dos colorados. Com gols de Dário e Valdomiro os gaúchos se deram bem e venceram por 2 a 0. A cobrança de falta do camisa Alvirrubro, em que a bola bate na trave e dentro do gol, gerou reclamação dos corintianos dentro de campo, mas nada comparado com o que se veria 29 anos depois.
O Brasileirão de 2005 teve polêmicas mil, dentro e fora de campo. Nos tribunais, 11 partidas tiveram que ser disputadas novamente devido à descoberta da “Máfia do Apito”. A confusão se estendeu para as quatro linhas.
Apesar de o torneio ser de pontos corridos, Corinthians e Inter fizeram um duelo que praticamente selaria o campeão. A arbitragem de Márcio Rezende de Freitas não marcou pênalti de Fábio Costa em Tinga. Os colorados literalmente reclamam até hoje.
Em 2007, o Inter poderia vencer o Goiás, evitando o rebaixamento do clube paulista. Nada feito. Na combinação de resultados, os corintianos tiveram que disputar a Série B. O goleiro Felipe, remanescente no Timão, chegou a acusar os colorados de terem entregado o jogo.
Os ânimos se arrefeceram um pouco, mas não por muito tempo. Na partida de ida, o Inter chiou muito em relação à arbitragem. A principal reclamação é que a falta que originou o segundo gol corintiano teria sido cobrada com a bola rolando.
A atitude da diretoria gaúcha foi criar um dossiê anti-Corinthians. Na segunda-feira, o vice de futebol do Inter, Fernando Carvalho, divulgou para a imprensa um DVD com supostos erros de arbitragem, que favoreceram o Corinthians nesta Copa do Brasil. Ao todo foram mostrados onze lances e, lógico, a lembrança do Brasileirão de 2005.
A iniciativa de Carvalho revoltou a todos no Corinthians. “O vice-presidente de futebol que falou isto deve estar pensando no futebol de 10 ou 12 anos atrás quando era presidente. Fico triste principalmente por ser o vice do Inter o vice-presidente do Clube dos 13”, agrediu o presidente corintiano Andrés Sanches, cometendo o ato falho, já que Carvalho presidiu o Inter de 2002 a 2006.
O dirigente colorado não se conteve e rebateu. “Com certeza o que foi colocado por mim não está agradando o Corinthians, porque é a confirmação clara e cabal de que eles foram beneficiados. O Corinthians é uma verdadeira vaca sagrada nacional, que não pode ter nada contra”.
São os cruzamentos de uma final de Copa do Brasil. Na quarta-feira, mas uma parte dessa história será contada, certamente outros capítulos ainda virão.