Ian Ferraz
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Primeiro clube a se apresentar para a temporada, o Brasília tem pago um valor caro por se planejar com antecedência. Antes mesmo de entrar em campo, o time sofreu a sua primeira derrota com a inviabilidade de utilizar o estádio Mané Garrincha como a sua casa. O motivo é a manutenção do gramado feito às vésperas do início da disputa do Campeonato Candango.
“É de pasmar. O Mané serve para campeonatos indígenas, encontro do MST, mas não está pronto para jogar futebol. Pensei que estava contribuindo para melhorar a imagem do próprio governo ao promover atividade esportiva no estádio feito para jogar futebol”, critica Luis Felipe Belmonte, presidente do Brasília, sem saber onde vai mandar a partida contra o Santa Maria no dia 30 deste mês.
O JBr. teve acesso ao documento que comprova a solicitação do clube para utilizar o palco. O pedido foi feito em 17 de dezembro e a Secretaria Adjunta de Turismo (Setur) deu baixa no dia 21.
Em contato com a reportagem, a Setur admite ter recebido o pedido, mas não confirma a realização da partida.
“Não tem uma definição. Não sei se eles estão passando informação para tumultuar… O jogo nunca foi marcado, só fizeram a solicitação”, explica Jaime Recena, secretário adjunto da pasta.
Irredutível, a diretoria do Colorado cogita perder os pontos da partida não comparecendo ao local que o mesmo for marcado “Até onde eu sei estaremos indo jogar no Mané Garrincha no dia 30. Não podemos ficar fazendo investimentos e anúncios oficiais e depois esbarrar em novidades”, reforça Belmonte. “Não nos mandaram nenhum documento, porque passamos o caso para a Federacão, que certamente confirmou a disponibilidade, a ponto de marcar os jogos com mando de campo do Brasília para o Mané Garrincha”, conclui.
A Setur argumenta que a manutenção do gramado estava prevista há seis meses. “Não está totalmente descartada a cessão. Estou cobrando a área técnica para saber da possibilidade”, avisa Recena.
Caso o Mané Garrincha não esteja apto, o duelo deve ser transferido para o Serra do Lago, em Luziânia.
Federação reforça o “ok”
A Federação Brasiliense de Futebol explica que houve, sim, contato com o governo e que a partida estava entre Brasília x Taguatinga, no dia 30, estava autorizada para o Mané Garrincha.
“O Brasília tinha confirmado o jogo lá e o governo deu ok. Eles tiveram que rever a decisão por causa da empresa que cuida do gramado por causa das Olimpíadas”, indica Erivaldo Alves Pereira, presidente da Federação.
O regulamento do Campeonato Candango diz que os clubes devem informar o estádio que vão utilizar com até dez dias de antecedência aos jogos, prazo com que o Brasília terá que lidar para definir seus mandos. “Eles podem nos dizer onde vão jogar até às 18h da quinta-feira. Se o mandante não indicar, a Federação escolhe o local da partida, mas vamos ouvir o clube”, complementa Erivaldo.
Secretário adjunto de Turismo, Jaime Recena insiste que não houve contato e que o “governo é muito grande”.
“Na Federação eu não interfiro. (Eles) Confirmaram porque quiseram confirmar. Não recebemos ninguém aqui (da Federação e do Brasília.”
QUASE LÁ
Até sexta-feira a FBF divulgará os estádios aptos a receber jogos. O Serejão, em Taguatinga, deve ser liberado em 15 dias e até o fim desta semana a autorização com os laudos técnicos aprovados deve sair par a o Agostinho Lima, em Sobradinho, o Abadião, na Ceilândia, e o Bezerrão, no Gama.
Curiosidades
Mané Garrincha
1 – O mais caro: o estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha custou R$ 1,8 bilhão, levando o título de mais caro dos 12 estádios da Copa do Mundo de 2014.
2 – Vale tudo: a carência de partidas obriga o espaço ser utilizado para vários tipos de evento, inclusive feiras de pet shops, festas e festivais de cerveja. O local também foi palco de shows internacionais, como os de Paul McCartney, Beyoncé, Aerosmith e Pearl Jam.
3 – Rubro-negro é o mandante: o Flamengo é o time que mais jogou no novo Mané Garrincha. A equipe carioca atuou 12 vezes na capital desde 2013. O Brasília, por sua vez, é o segundo colocado, com oito partidas. O Colorado foi campeão da Copa Verde na arena em 2014 e vice do Candangão em três oportunidades: 2013, 2014 e 2015. Botafogo e Vasco da Gama jogaram seis vezes cada.
Concessão parada até os Jogos
O principal palco do futebol brasiliense, que tem custo mensal de R$ 700 mil, não recebe uma partida desde 22 de novembro de 2015. Nesta data, Flamengo e Ponte Preta empataram por 1 x 1. No dia 20 do mesmo mês, o Botafogo levantou o troféu da Série B ao vencer o ABC-RN. Foram 14 jogos em 2015 contra 29 em 2014 e 21 em 2013, ano de inauguração.
Tornar o espaço mais atraente e encontrar investidores dispostos a arcar com os gastos do local tem sido uma missão ingrata. Desde o governo Agnelo há uma tentativa de repassar o estádio, mas até o momento não foi possível.
A gestão de Rollemberg tenta encontrar um “dono” para o Mané Garrincha, mas encontra dificuldades. “Temos o compromisso com os Jogos Olímpicos. Quando ele se encerrar vamos nos estruturar para criar um projeto [de concessão]. O governo tem sinalizado que se interessa em parcerias”, esclarece Jaime Recena.
Se houver interessados na arena antes dos Jogos, as conversas poderão ser antecipadas a fim de estancar os prejuízos que o Mané Garrincha rendem aos cofres do GDF.
Sobre a utilização do espaço por equipes do Candangão, Recena se mostra favorável e disposto a ajudar. “Qualquer modelo que possa ser pensado para reduzir custos é válido. Estamos dispostos a sentar e conversar.”
Gramado sempre foi entrave para o Mané
O Mané Garrincha foi inaugurado em 18 de maio de 2013, na final do Campeonato Candango entre Brasiliense x Brasília. Na época, a instalação do gramado contrariou o cronograma da Fifa, que solicitava e classificava como “padrão A” o plantio por mudas.
Em Brasília, o método utilizado foi o de rolos devido ao atraso nas obras (a entrega do estádio foi prometida para três datas: 31/12/2012, 15/04/2013 e 21/04/2013). As mudas utilizadas foram trazidas de Neópolis, em Sergipe, e o processo completo durou 18 dias.
Ao longo dos dois anos de utilização, a arena passou por reparos e foi motivo de queixa. “O gramado está muito ruim, especialmente para uma arena tão cara como essa. Eu lamento como contribuinte”, detonou Levir Culpi, ex-técnico do Atlético-MG. René Simões, ex-Botafogo, também expôs a situação. “Para uma arena tão cara, o gramado está horroroso”, reclamou em 2014.
Agora, a Setur afirma que manutenção é “aprofundada e visa as Olimpíadas”. O custo de manutenção do tapete é de R$ 94 mil mensais. “Fizeram esses estádios no estilo europeu, de baú, formato de caixão. A grama não pega bem porque precisa de luz. A grama que foi plantada nunca vai ficar boa”, expõe o engenheiro agrônomo Odilon Vieira Junior, da Atumam Gramados Esportivos.
Odilon ressalta que o processo de “overseeding” – técnica onde se instala sementes diferentes de acordo com a estação do ano – necessita de ao menos duas semanas para a utilização sem prejuízo ao gramado.