Há exato um mês, o goiano Wendell Lira era apresentado a um mundo bem distante do qual estava acostumado. Dividindo o tapete vermelho da Fifa com Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar e cia., ele nem fazia questão de se mostrar familiarizado ao ambiente.
Sob a humildade digna de quem marcou um gol pelo Goianésia durante o Goianão e foi parar na maior festa de premiação do futebol mundial, a Bola de Ouro, Wendell Lira virou o jogo rapidamente ao desbancar Messi (33,3%) e Florenzi (7,1%) e vencer a votação popular de o gol mais bonito marcado no ano de 2015, com 46,7% dos votos.
Em seu discurso de agradecimento, já com o Prêmio Puskas em mãos, lembrou da citação bíblica: “Quando o gigante Golias apareceu, disseram: ‘ele é muito forte, grande, não tem como vencê-lo’. Davi falou: ‘Deus, é muito grande, não tem como não acertar’”.
A bela história que alçou o então desconhecido atacante Wendell Lira ao status internacional tem também lhe imposto dificuldades. Após 30 dias, ele saiu do encanto geral ao pior obstáculo para um jogador: não conseguir entrar em campo.
Desde que deixou Zurique, na Suíça – local da premiação da Bola de Ouro –, Wendell atuou somente 45 minutos. A primeira aparição em campo ocorreu em 16 de janeiro. O atacante do Vila Nova entrou nos primeiros 25 minutos do jogo amistoso contra o Vilaboense, mas pouco contribuiu na vitória por 6 x 0.
Após isso, os compromissos com patrocinadores e jornalistas preencheram o tempo. “Temos de entender que ele (Wendell) só conquistou alguma coisa pelo que fez em campo. Agora está tendo problema nos treinamentos, até para conseguir atender a todos. Está deixando de fazer o essencial, que é dentro de campo. Se não render, a cobrança virá em cima dele”, disse o técnico Márcio Fernandes, no dia 18 de janeiro.
De lá para cá, Wendell foi preterido pelo comandante (veja quadro abaixo). No último sábado, ganhou um voto de confiança e foi a campo por 20 minutos. Hoje, está novamente relacionado, desta vez contra o Crac, às 19h. Se vai sair do banco de reservas, é outra história.
Blindado
Devido ao desvio de foco, Wendell tem sido blindado pela diretoria e pelo treinador. Está distante das entrevistas e chegou até a trocar o número do telefone celular. Praticamente todos no clube têm evitado o assunto Wendell para ganhar o atacante de volta.
Memória
Esta não é a primeira vez que o técnico Márcio Fernandes tem de lidar com uma pressão externa para escalar um jogador. Em 2013, ele comandava o Brasiliense, que tinha como “estrela” o filho do ex-jogador Romário, o Romarinho. Numa visita de Romário ao estádio para ver o filho, Márcio Fernandes recebeu críticas. “Como um cara que jogou por vinte e poucos anos, eu acho que o Romarinho teria vaga no time. Mas eu também já tive treinador assim, burro, que não conhece futebol. É claro que as pessoas vão falar que estou dizendo isso só porque sou pai, mas, na minha opinião, agora, como torcedor, o treinador é burro e não conhece futebol”, disparou. Márcio não cedeu à pressão e Romarinho continuou por muito tempo sendo opção no banco.
Os 30 dias pós-título
11 janeiro: Wendell Lira recebe o Prêmio Puskas
16 janeiro: Entrou em campo 25 minutos no amistoso contra o Vilaboense. O jogo foi 6 x 0 para o Vila Nova.
23 janeiro: Nem sequer fica no banco de reservas no amistoso contra o Santa Maria. O time goiano vence por 2 x 0.
24 janeiro: Vem a Brasília apenas para tirar fotos. Ele é relacionado para amistoso contra o Formosa, mas não vai a campo: vitória do Vila Nova por 3 x 1.
31 janeiro: Na estreia no Campeonato Goiano, fica fora dos relacionados e apenas vê a derrota do Vila por 2 x 0 para o Goiás.
3 fevereiro: Wendell fica fora dos relacionados da partida com o Anápolis, pela 2ª rodada do Goianão: empate por 1 x 1.
6 fevereiro: Wendell volta a ser relacionado para uma partida. Ele vê do banco de reservas o gol da vitória por 1 x 0 contra Trindade, entra aos 28 minutos do segundo tempo, mas toca pouco na bola.
11 fevereiro: Wendell Lira está, pela primeira vez, relacionado para duas partidas consecutivas.