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Estilo de Vida

O mito dos gatos pretos e as origens de uma superstição milenar

A sexta-feira 13 chegou e com ela alguns mitos precisam ser revisitados

Amanda Karolyne

13/02/2026 12h49

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Naomi. – Foto: Amanda Karolyne/Jornal de Brasília

Evitar passar debaixo de escadas, quebrar espelhos e derramar sal são algumas superstições de crença popular, assim como a temida sexta-feira 13. Mas outra crença que ainda está enraizada em muitas culturas é a de que gatos pretos dão má sorte. Para conscientizar as pessoas sobre como isso se trata de um mito, a equipe do JBr conversou com especialistas sobre questões que estão sempre ligadas à data mais temida do calendário.

A historiadora Tupá Guerra, especialista em demonologia, explica que a ideia de que gatos pretos dão azar está muito relacionada à Idade Média e à Europa. “Até porque os gatos domésticos têm origem na África — as principais informações vêm do Egito — e vão se espalhar bastante pela Europa.” Mas, como ela apontou, durante a Idade Média, a partir de alguns escritos cristãos, os gatos eram associados a bruxas e tidos como fonte do mal. “Com essas associações, nem sempre era necessariamente um gato preto, mas eventualmente a ideia vai migrando para eles porque o preto é o gato que mais se esconde”, contou.

A especialista observou que, ao mesmo tempo, em vários países da Europa, as tradições mais antigas associam o gato preto à sorte. “Então, você tinha, por exemplo, a tradição de gatos pretos serem considerados positivos; se você mudasse para uma casa na Escócia ou no País de Gales, deveria levar um gato preto”, pontuou. Mas, dentro do cristianismo, esse conceito mudou com as conotações ao diabo e ao maligno. “E daí, quando os puritanos vão para os Estados Unidos, eles levam junto essas ideias de que os gatos pretos são malignos. Por isso que está muito associado a essa visão.”

Ela afirma que, no Brasil, essa ideia se consolida especialmente com os filmes feitos em Hollywood. Tupá descreveu que, de acordo com a superstição, se um gato preto cruzar seu caminho em uma sexta-feira 13, você teria muito azar. “Mas existem outras superstições que dizem que daria muita sorte. Esse mito de que o gato dá azar é uma coisa bem recente. Gatos pretos já foram considerados sinal de azar ou sorte, dependendo da época em que estamos vivendo no mundo.”

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Naomi. – Foto: Amanda Karolyne/Jornal de Brasília

Entre o mito do azar e a busca por um lar

A médica veterinária Pilar Barbosa Fonseca afirmou ao JBr que, no dia a dia da profissão, a percepção é de que esses gatos são mais difíceis de serem adotados. “Quando pegamos uma ninhada de filhotes para adoção, geralmente eles, junto com os escaminhas (gatos que apresentam padrão de pelagem tricolor), sempre ficam por último.”

Pilar acredita que os gatos, de modo geral, já sofrem bastante preconceito, embora nos últimos anos isso tenha mudado. “Eles estão conseguindo ganhar mais espaço nas casas e na vida das pessoas, mas ainda precisamos mostrar que gatos são, sim, seres amorosos e carinhosos e que a cor não muda sua essência”, acrescentou. Ela ressaltou que esses bichos de estimação criam vínculos profundos com seus tutores e com seu lar.

Apesar de algumas pessoas duvidarem que ainda existam crenças em superstições, é sempre recomendado que, em datas específicas como a sexta-feira 13, os animais fiquem 100% domiciliados, sem risco de acesso à rua, para evitar casos de maus-tratos e até mesmo óbito.

Em tempos em que o combate aos maus-tratos animais tem sido um tema recorrente, Pilar aponta para a complexidade do assunto e a importância da conscientização coletiva: “Precisamos criar a consciência e ensinar, principalmente às crianças, desde cedo, que os animais precisam de respeito, amor e cuidado; que eles são exatamente como crianças e necessitam de atenção.” Ela acredita que é preciso reforçar as punições para quem comete maus-tratos, visando coibir esse tipo de crime.

A veterinária especializada em medicina felina Thaís Seixas, da Casa do Gato — a primeira clínica de Brasília com essa especialidade —, explica que, como o local facilita a adoção de gatinhos resgatados, a saída de gatos pretos é a mais baixa. “Nós temos dois agora esperando uma casa. Já são adultos, estão castrados, vacinados, estão prontos, mas o pessoal não gosta muito.” Ela afirmou que um deles aguarda um lar há quatro meses. “Geralmente as pessoas querem um gato mais ‘popular’, um gatinho branco ou um laranja. Só que gatos pretos são lindos do mesmo jeito”, salientou.

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Gatinho que está para adoção na Casa do Gato. – Foto: Amanda Karolyne 

Para ela, é notável que as gerações mais antigas tenham mais apego à superstição de que gatos desta cor trazem azar, mas que os mais jovens já estão trabalhando para quebrar esse mito. Thaís acredita que a sexta-feira 13 é uma data importante, que deve ser usada para conscientizar as pessoas a não maltratarem os animais, especialmente os gatos pretos. “O gato preto não dá azar; nenhum gato dá azar, na verdade”, destacou.

Perto de datas como Halloween ou sextas-feiras 13, a veterinária recomenda que as instituições segurem a adoção de gatos pretos, como medida de segurança.

A cautela nas datas críticas

O Betina Cat Cafe atua como uma ponte  entre protetores de gatos resgatados, ONGs e possíveis adotantes, orgnizando feiras de adoção ao ambiente de “gatoterapia” em seu espaço interno. A proprietária do café, Mariana Eduarda Brod, explica que o processo de adoção de gatos pretos se torna ainda mais rígido em períodos específicos do ano.

Por precaução e para prevenir maus-tratos, é como que as instituições optem por não liberar gatinhos para adoção durante as semanas que envolvem datas como a sexta-feira 13 e o dia 31 de outubro (Halloween). De acordo com Mariana, a medida visa proteger os animais de pessoas com más intenções. “Por precaução, acabamos não liberando gatinhos na semana dessas datas, não apenas no dia específico, porque infelizmente ainda ocorrem maldades, especialmente com o gatinho preto”, relatou. Ela conta que, após o período crítico, a equipe retoma o contato com os interessados, e o resultado costuma ser revelador. “Muitas vezes, a pessoa dá alguma desculpa ou simplesmente não responde mais. Dá uma agonia, mas também um alívio, porque nos faz questionar se algo ruim aconteceria ou se a pessoa apenas perdeu o interesse”. 

Mariana observa que, embora o índice de desistência em processos de adoção seja geralmente baixo, ele aumenta consideravelmente quando envolve gatos pretos nessas datas específicas. Por esse motivo, durante todo o mês de outubro, ou próximo a datas como a sexta-feira 13, o cuidado das protetoras é redobrado e as entregas são suspensas.

Saiba Mais: Como denunciar maus-tratos no DF

No Distrito Federal, maltratar animais é crime previsto na Lei Federal nº 9.605/1998. Para casos envolvendo cães e gatos, a pena é de reclusão de dois a cinco anos, além de multa e proibição da guarda. Se você presenciar abandono, agressão ou privação de alimento e abrigo, utilize os canais oficiais:

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