JÉSSICA MAES E RUBENS CAVALLARI
FOLHAPRESS
Sob o céu azul de agosto, um catamarã avança pelo mar do extremo sul da Bahia em direção à costa. É o fim de uma expedição de dois dias ao Parque Nacional Marinho de Abrolhos.
Debruçados sobre planilhas de papel e um computador, pesquisadores fazem cálculos. “Ao todo, 59 baleias se aproximaram do barco, duas delas filhotes, fora todas as outras que vimos à distância”, conclui Milton Marcondes, coordenador de pesquisa do Instituto Baleia Jubarte, que há três décadas estuda a espécie.
O número impressiona, em especial quando se considera que a população das baleias-jubartes da costa brasileira foi reduzida a algumas centenas pela caça, proibida mundialmente em 1986. Hoje, o total chega a quase 35 mil, segundo o último censo do instituto, de 2022.
O trabalho de observação dos animais inclui a documentação minuciosa de informações como localização, profundidade, comportamento, quantidade de indivíduos em cada grupo e, quando possível, registro fotográfico da cauda, que tem um padrão único e serve como uma impressão digital.
O processo envolve várias pessoas, muitas horas de navegação, olhos atentos e gritos: “Baleia à bombordo”, “É um grupo de seis”, “Cauda, cauda!” e “Consegui a foto, essa é padrão P1”.
O projeto já cadastrou mais de 14,7 mil fotografias de baleias na plataforma global Happy Whale. Dessas, 9.254 foram identificadas e correspondem a 8.359 indivíduos
O trabalho levou à descoberta de uma jubarte baiana que viajou por mais de 14 mil quilômetros, chegando até a Austrália. O registro em águas brasileiras foi feito por pesquisadores do IBJ, como o instituto é conhecido, e a foto da cauda “deu match” com uma imagem feita do outro lado do planeta.
O conhecimento acumulado pelos pesquisadores também embasa políticas públicas, como normas para o turismo de observação de baleias e lista de espécies ameaçadas de extinção da qual a jubarte deixou de fazer parte em 2014.
Os dados vêm sendo usados, ainda, para reduzir o risco de atropelamento de baleias por navios. “Já fizemos isso para o terminal Almirante Barroso, em São Sebastião (SP), e o porto de Vitória (ES)”, conta Marcondes. “Os navios são orientados a adotar uma rota que passa por área com menor concentração de baleias e numa velocidade máxima de 10 nós.”
Outro exemplo de aplicação dessas informações são as diretrizes para pesquisa sísmica. A técnica usada na indústria de óleo e gás é como um ultrassom gigante, que causa um grande ruído submarino para buscar novas reservas de combustíveis fósseis.
“Conseguimos incluir Bahia, Espírito Santo e Sergipe como área de restrição à sísmica por conta da jubarte, numa área que vai da linha da costa até a profundidade de 500 metros, no período de 1º de julho a 30 de novembro”, diz o veterinário, em referência à temporada de baleias no litoral brasileiro.
“Há 15 anos nossa preocupação era tirar a jubarte da lista de espécies em extinção. Hoje o desafio é saber como as nossas atividades no mar vão conviver com uma população saudável de 35 mil baleias”, explica Eduardo Camargo, diretor-presidente do IBJ.
NOVAS FRENTES DE PESQUISA
A longevidade do projeto permite algo valioso na ciência: a produção de dados ao longo de muito tempo. Isso, somado a avanços tecnológicos e à recuperação da espécie, abre novos caminhos de pesquisa.
Nádia Freitas, 33, mestranda em Ecologia da Universidade Federal de Santa Catarina, e Laura Aguilar, 26, mestre em Zoologia da Universidade Estadual de Santa Cruz, fazem parte da mais recente geração de cientistas do IBJ.
Enquanto Freitas estuda a ocupação pelas baleias-jubarte da região costeira de Abrolhos, Aguillar analisa o peso e o tamanho delas a partir de imagens de drone.
“Nos anos em que eu vi que a condição corporal delas estava melhor, a Nádia também viu que tinha mais baleia, por exemplo”, afirma Laura. “Será que a condição corporal indica que elas estavam se alimentando muito bem na temporada anterior? Dá para relacionar isso com fatores ambientais? A gente chega com uma pergunta e vai descobrindo outras, querendo investigar mais coisas.”
Até o momento, a produção científica do IBJ conta com 143 artigos publicados e a formação de 44 estudantes de mestrado e 19 de doutorado saídos de diversas universidades.
“Estamos investindo também em estudos de fisiologia, por exemplo, medindo cortisol, o hormônio do estresse, nas baleias”, diz Eduardo Camargo. Experimentos controlados irão avaliar a influência do barulho e das embarcações no estresse dos animais.
A coleta de amostras genéticas desses gigantes parece cena de filme de ação. De colete salva-vidas, capacete e amarrados a um bote inflável, os pesquisadores partem em busca de grupos de machos que brigam pela atenção de uma fêmea.
Em meio a batidas das nadadeiras imensas, quando os animais sobem para respirar, a ação deve ser rápida e precisa: um cientista dispara uma flecha, que acerta a baleia e logo cai na água. Ela tem a ponta modificada para retirar um pequeno pedaço da pele e da gordura da jubarte e é equipada com uma boia colorida para não se perder na confusão.
Os ácidos graxos das amostras coletadas pelo IBJ serão analisadas numa parceria com instituições australianas. A pesquisa irá avaliar a condição ambiental da Antártida e o impacto da mudança climática no continente a partir da alimentação das baleias.
30 ANOS DE CIÊNCIA
A descoberta de que a costa da Bahia é um berçário da baleia-jubarte é causa e consequência do projeto.
As baleias-jubarte migram por milhares de quilômetros todos os anos. As que frequentam o litoral do Brasil nadam da região das ilhas Geórgia do Sul e Sandwich, na Antártida, sua área de alimentação, até o banco de corais de Abrolhos, onde se reproduzem e têm filhotes.
Só após a criação do parque nacional na região o primeiro marinho do Brasil, em 1983 percebeu-se a presença sazonal dessas gigantes naquelas águas quentes.
“Fizemos várias idas e vindas por aqui para a implantação do parque e descobrimos uma população de baleias”, conta Enrico Marcovaldi, com os olhos no mar e a câmera fotográfica na mão. “Foi uma surpresa muito grande, porque elas tinham sido quase extintas.”
Fotógrafo de vida selvagem, ele fundou com a bióloga Márcia Engel, em 1988, o Projeto Baleia Jubarte para estudar a espécie. Em 1996, nasceu o instituto de mesmo nome, que expandiu as atividades do projeto. Desde o início, o IBJ recebe patrocínio da Petrobras.
A atividade petroleira tem alto impacto ambiental marinho e braço socioambiental da empresa apoia não apenas esse, como outros projetos de conservação. Para Gregório Araújo, gerente de projetos ambientais da Petrobras, não há conflito de interesses na relação.
“Quando você faz uma agenda de sustentabilidade vinculada a valores e práticas estruturantes da empresa, essa contradição deixa de existir. Porque uma coisa é você dar um dinheiro, ficar um ou dois anos e ir embora. Outra coisa é uma parceria de 30 anos, que vai sendo amadurecida”, afirma.
Ele dá o exemplo do terminal de petróleo de São Sebastião, usado pela companhia. “A partir do monitoramento das rotas da jubarte, desenhamos o melhor traçado para esses barcos chegarem e saírem do terminal sem impactar a migração das baleias.”
Em 2025, a estatal investiu R$ 70 milhões em projetos socioambientais relacionados ao oceano. O lucro líquido da Petrobras no mesmo ano foi de R$ 110 bilhões.
Os repórteres viajaram a convite da Petrobras
Recuperação da baleia-jubarte evidencia importância da ciência para conservação
Após ser reduzida pela caça, população de jubartes volta a crescer e chega a quase 35 mil animais na costa brasileira
Foto: EVARISTO SA / AFP