Paralisado por um período, o projeto de cães-guias do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) voltou com força total no ano passado. A corporação inaugurou um novo espaço, o Centro de Treinamento de Cães de Assistência, localizado no Setor Policial Sul, com o objetivo de formar cães-guias para pessoas com deficiência visual, cães de assistência para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e capacitar estudantes de escolas cívico-militares em cinotecnia e adestramento.
Antes do treinamento técnico, no entanto, os filhotes precisam passar por uma etapa essencial: a socialização. É nesse momento do desenvolvimento dos cães que a colaboração de famílias voluntárias se torna fundamental. Atualmente, 17 animais estão nessa fase e devem retornar ao Centro em julho. O capitão do CBMDF Jean Charles explicou ao Jornal de Brasília que os cães encaminhados a cada uma das três frentes principais do projeto têm perfis diferentes.
Os filhotes que nascem no Centro ou chegam por meio de doações e convênios permanecem nos primeiros 90 dias no local e, em seguida, são encaminhados para as famílias socializadoras. Após esse período, retornam ao espaço do CBMDF, onde iniciam o treinamento especializado, com duração média de cinco a seis meses. Ao final, os cães são entregues aos beneficiários, que também passam por um curso de orientação e adaptação. Já os animais destinados ao apoio a crianças com TEA são aqueles que não se adaptaram ao treinamento para atuar como cães-guias.

“O filhote precisa ser de raças que se adaptam bem a esse tipo de trabalho. Hoje, trabalhamos com Golden Retriever, Pastor Alemão e Labrador. Alguns cães já nascem no nosso centro de treinamento e outros vêm de parcerias e doações. Com cerca de três meses, o filhote vai para uma família socializadora, onde fica de 10 meses a um ano para aprender a conviver com pessoas e com a rotina familiar. Até o cão estar pronto para ser doado, ele vai ter entre um ano e oito meses e dois anos de idade”, explicou o capitão.
Já os cães que participam da capacitação de estudantes, com idades entre 13 e 16 anos, das escolas cívico-militares são resgatados de organizações não governamentais (ONGs) e, após o treinamento, retornam para adoção. Durante o curso, os alunos aprendem sobre adestramento e cinotecnia e, ao final, recebem um certificado de 140 horas. Segundo o capitão Jean, em 2025, dez estudantes do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 01 do Lago Norte (CELAN) foram formados.
O capitão também destacou a importância do papel desempenhado por esses animais. “O cão-guia é preparado para ser um trabalhador. Ele não é um pet. Ele cumpre uma missão ao lado da pessoa com deficiência visual. Por isso, orientamos que as pessoas não brinquem nem tentem interagir com o animal quando ele estiver guiando o usuário”, alertou.

Como participar
Pessoas com deficiência visual que desejam ser beneficiadas gratuitamente com um cão-guia podem manifestar interesse junto ao Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal pelo e-mail cadastronacional@projetocanguia.com. “A pessoa com deficiência visual precisa fazer o cadastro por meio do e-mail, manifestando interesse em receber um cão-guia. A partir disso, ela entra em uma fila de espera. O processo ainda não é rápido, porque o preparo do cão é longo e envolve várias fases”, explicou o capitão Jean.
Já as famílias interessadas em atuar como lar temporário e participar do processo de socialização dos filhotes devem se inscrever pelo e-mail famíliahospedeira@gmail.com. De acordo com o militar, é necessário que a família resida no Distrito Federal, já que o CBMDF presta assistência durante todo o período em que o animal permanece com os voluntários. Os interessados passam por uma avaliação técnica realizada por um corpo especializado.
“Temos um psicólogo que realiza essa etapa e analisa alguns quesitos, principalmente a disponibilidade de tempo. O cão é como um bebê e precisa de atenção. É fundamental gostar de animais, ter afinidade e, sobretudo, tempo para se dedicar. Depois de aprovada, a família entra em uma lista de espera e, assim que houver um cão disponível, ele passa a ficar com ela. Durante todo o período, o animal é monitorado e acompanhado, com visitas do psicólogo e suporte veterinário. A família também recebe orientação sobre alimentação, cuidados, receituário e toda a estrutura necessária”, afirmou.
Família abre o lar para filhote
A médica veterinária Jacqueline Tormin conheceu o projeto por meio de um folder e, depois, buscou mais informações em uma reportagem de jornal. Em casa, ela já convive com diversos animais, como cães, gatos, aves e até coelhos. Após conversar com o marido, decidiu se inscrever no programa. Jacqueline conta que quis participar pela oportunidade de fazer parte de algo tão significativo quanto o treinamento de um cão-guia.

Segundo a médica, os principais desafios foram questões comuns à fase de filhote, como as necessidades fisiológicas e a bagunça, mas nada fora do esperado. A adaptação, segundo a veterinária, foi tranquila. No início, houve mais dificuldade com as aves e os gatos, mas, com paciência, todos se ajustaram. Ela afirmou ainda que o suporte do CBMDF tem sido excelente.

A veterinária conta ainda que a socialização do animal vai além do acolhimento em casa, é necessário passear com o cão em vários locais, como mercado, farmácia, shopping. O intuito é fazê-lo conhecer todos os ambientes onde um tutor com deficiência visual possa frequentar. O filhote é identificado com bandana do CBMDF e a família recebe crachás de identificação. A entrada de um cão-guia, mesmo em fase de treinamento, em locais públicos e privados é assegurada pela Lei nº 11.126, de 27 de julho de 2005.

“Tenho uma filha de dois anos e ela ficou super empolgada com a chegada do filhote. Desde o começo, a gente explica que o cachorro não é nosso, que ele é do Corpo de Bombeiros. Ela foi com a gente buscá-lo e sempre que vamos ao centro de treinamento fazemos questão de levá-lo junto. A gente explica que ele está treinando para crescer e ajudar, no futuro, uma pessoa que não consegue enxergar. Acho isso muito importante, porque desde pequeno a criança aprende que nem tudo é do jeito que a gente quer. Ela se apegou, criou amor e carinho, mas entende que estamos fazendo o bem para outra pessoa”, comentou.
