Um clássico do automobilismo que fez parte da história de Brasília retornou à capital. O “Patinho Feio”, um carro construído por quatro jovens na década de 60 vai ficar exposto no Museu Autoclub da V12 Prime, próximo ao Aeroporto de Brasília. O JBr foi até o local para ver de perto o carro histórico conversar com alguém que o conhece muito bem, afinal ele mesmo ajudou na construção do Patinho Feio.
Jean Louis da Fonseca, atualmente com 77 anos de idade, fala orgulhosamente sobre o Patinho Feio. Em 1967, ele e outros três amigos que tinham em comum o amor pelo automobilismo decidiram construir um carro de corrida. Foi então que aos 18 anos de idade, Jean Louis, Alex Dias Ribeiro, Helládio Monteiro e Zeca Vassalo começaram uma história que encantou não só os brasilienses, mas os fãs de automobilismo de todo o Brasil.

“O Patinho Feio foi construído por quatro meninos, eu era um deles. O nosso sonho era correr de carro, mas ninguém tinha dinheiro, e aí nós pegamos o Fusca do pai de um dos nossos amigos que já estava batido e destruído. Construímos esse carro no fundo do quintal”, comentou Jean Louis. Segundo ele, a ideia era de fato competir com o veículo, mesmo que nenhum dos quatro jovens tivesse experiência com aquilo. Ele também relembrou que quando pronto, o carro era “tão feio que cada um apelidava de um nome, acabou ficando Patinho Feio”.
“Nós nunca tínhamos corrido. Na época tinha que entrar primeiro numa corrida para estreante, e nós conseguimos uma liberação para entrar direto numa corrida que ia ter dali a três semanas, uma do Campeonato Brasileiro. Era os 500 km de Brasília, que vinham pilotos do Brasil todo”, contou. E assim aconteceu a estreia do Patinho Feio, batendo de frente com carros que eram considerados os melhores.
“O carro ficou pronto no último dia, foi feito na garagem de um dos amigos. Nós não tínhamos nem ideia se ele ia andar porque não treinamos nem nada. Como o carro é muito leve, nós levamos um susto”, disse Jean Louis. Isso porque os amigos não tinham a expectativa de realmente ter uma chance contra os competidores, que estavam em carros de marcas como Porsche e Alfa Romeo. No entanto, o Patinho Feio surpreendeu a todos.
“Na hora da corrida, quem correu fui eu e o Alex. O carro estava andando demais, apesar de ser um motor bem fraquinho. O motor era de um Fusca 1200, um dos primeiros que tinham no Brasil. O Patinho Feio saiu em último por sorteio, e fomos passando e passando. Foram 6 horas de corrida e mais de 30 carros. Nós íamos até a ganhar, mas teve um problema de uma lâmpada da lanterna traseira. Fomos obrigados a parar e ficamos um tempo. Mas mesmo assim, o carro estava tão bem que chegamos em segundo lugar, atrás de um Alfa Romeo importado. Com isso, o carro ganhou uma fama”, explicou.
Cultura do automobilismo na capital
A ascensão do Patinho Feio impulsionou mais ainda o automobilismo em Brasília, que já se mostrava bem potente, como relembrou Jean Louis. “Naquela época, a grande atração não era futebol, era corrida de carro. As corridas eram no meio da rua, ali em volta da rodoviária. Passava pelo Eixo, pela W3 e pela Torre. Isso atraía muita gente, no geral Brasília tinha 300 mil habitantes e nas corridas chegava até 100 mil pessoas de público”.

Depois da grande performance na prova dos 500 km de Brasília, os amigos continuaram competindo e passaram a correr também em outros cantos do Brasil. “Foi uma corrida atrás da outra, começamos a ir para fora de Brasília: Anápolis, Goiânia, Belo Horizonte, Rio de Janeiro. Chegamos a correr na inauguração do Autódromo de Fortaleza. O carro ficou famoso e por causa disso hoje é um símbolo de Brasília”, ressaltou Jean Louis.
Com o sucesso do carro, os amigos também começaram com uma oficina, a Camber. Nela alguns nomes icônicos do automobilismo brasileiro começaram a carreira. “Nós tivemos na oficina dois mecânicos que aprenderam mecânica, gostaram e acabaram depois indo para a Fórmula 1. Um é o Roberto Pupo Moreno, o outro é o Nelson Piquet”, destacou. Segundo Jean Louis, “daqui saíram muitos e muitos pilotos para o mundo”.
História de cinema
De acordo com Jean Louis, a história do Patinho Feio foi tão bonita que mereceu ser registrada. “Um dia apareceu um diretor de cinema que resolveu fazer um filme contando essa história. Ele fez um documentário longa-metragem. Esse documentário participou do Festival de Cinema Brasileiro e acabou ganhando o primeiro prêmio como documentário”. A produção se chama “O fantástico Patinho Feio”, do diretor Denilson Félix.
Depois de um tempo no interior de São Paulo, o Patinho Feio enfim retornou para o local onde nasceu. “Em vez de ficar numa garagem, ele vai ficar no museu V12, Autoclub, que fica aqui perto do aeroporto. De vez em quando, como ele funciona normalmente, talvez ele vá para algum evento, em um autódromo”, disse Jean Louis. Os últimos preparativos para que o carro fique exposto no museu estão sendo preparados. A expectativa é que ainda nesta semana ele já seja colocado no local. O Museu V12 Autoclub abre de quarta-feira a domingo, das 9h às 18h.