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Ronaldo Fraga abre edição online da SPFW com coleção inspirada na cultura popular

Com curadoria de Marcello Dantas, o evento de moda segue até domingo e conta com a participação do projeto Sankofa

Começa na quarta, 23, mais uma edição da São Paulo Fashion Week, com o título Festival SPFW + Regeneração e, novamente, será em formato online e poderá ser acompanhado pelo site do evento (spfw. com.br). Com curadoria de Marcello Dantas, o evento de moda, que segue até domingo, 27, conta com a participação do projeto Sankofa, o coletivo criado pela plataforma Pretos na Moda que reúne estilistas negros dos ateliês Mão de Mãe, Az Marias, Meninos Rei, Mile Lab, Naya Violeta, Santa Resistência, Silverio e Ta Studios. Além de novos nomes, designers veteranos também estarão na edição, como Gloria Coelho, Isabela Capeto, João Pimenta e Ronaldo Fraga, que conversou com o Estadão, por telefone, de seu apartamento em Belo Horizonte.

Imunizado com a primeira dose de vacina contra a covid, o mineiro Ronaldo Fraga, 53 anos, conta que ficou mais de ano no isolamento social e que saiu dele, com toda a segurança necessária, para criar sua nova coleção, a ser apresentada, em formato de curta-metragem, na abertura da SPFW. Amante da cultura em seus mais variados níveis, Fraga foi novamente vasculhar lugares distantes e tirar dali a inspiração para seu trabalho. Para isso, percorreu o Cariri cearense e se encantou por histórias do povo e tudo o que ele produz.

“Eu digo que essa é a melhor parte de fazer uma coleção, porque é a oportunidade que se tem de mergulhar em um universo que não é o seu, e a chance de sair uma pessoa um pouquinho mais interessante”, afirma o estilista. E, como é de seu feitio, ele não se limita a colocar apenas a beleza em cena – seu olhar vai além. Um dos expoentes da moda, Fraga carrega em suas criações sua visão de cultura, mas sempre com uma carga política. “Todas minhas coleções são políticas, porque o ato da escolha da roupa definitivamente é um ato político”, acredita.

Essa não é primeira vez que Fraga utiliza as influências nordestinas em suas criações, o que reforça sua convicção sobre dar um olhar mais atento a essa cultura e suas manifestações. “Eu já tinha feito uma, a Carne seca, em que coloquei na mesma mesa para almoçar o alagoano Graciliano Ramos, o pernambucano João Cabral de Melo Neto e o mestre do couro Espedito Seleiro, de Nova Olinda”, se recorda o estilista, que utiliza agora a experiência de trabalhos anteriores.

“Essa coleção, que chamo de Terra de Gigantes, parte de um olhar reverente aos mestres do Cariri cearense”, conta Fraga que, para realizar seu trabalho, contou com um projeto capitaneado pelo Sesc do Ceará em parceria com o setor de moda do Senac. “Eu tive alunos me acompanhando no processo de montagem da coleção”, explica. Com a distância e a pandemia para complicar um pouco, foi necessária a realização de encontros virtuais, que ocorreram semanalmente por dois meses. “Quando cheguei lá, eu já era íntimo de todos”, se diverte o estilista. E esse contato com os jovens reforçou no estilista a crença da importância dessa troca de experiências. “No final, me agradeceram dizendo que tiveram a oportunidade de enxergar coisas da própria cultura que eles não viam.”

Influenciado por nomes emblemáticos da nossa cultura, Ronaldo Fraga conta que tem Mário Andrade como mentor intelectual. Vem do escritor essa vontade de sair de sua zona de conforto e partir para descobertas pelo Brasil. “Mário passou dois anos de sua vida viajando pelo Norte e Nordeste do País, o que originou o livro Turista Aprendiz”, comenta Fraga, que afirma se vestir desse “turista aprendiz nesses lugares” em que chega. Para o estilista, ao se inspirar no escritor, acabou se aproximando de destacados artistas locais. “Eu digo que o grande amálgama da cultura brasileira é o Nordeste. E um dos epicentros disso é toda essa região do Cariri, que vai ali da Paraíba, um pedacinho de Pernambuco até o Ceará.”

Fraga destaca a importância de lançar luz aos mestres locais, “verdadeiros mitos da cultura brasileira”, como é o caso de Espedito Seleiro, com seu trabalho em couro, Françuli e seus aviões de metal, ou ainda a mestra Zulena e suas rezas. Mais que isso, ele procura valorizar esses trabalhos, colocando em suas criações o que recebeu de influência deles.

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Estadão Conteúdo






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