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Moda e Beleza

Palco, nova marca nacional de moda, aposta na fuga criativa da pressão do varejo

Eles fazem parte de um movimento crescente de nomes que preferem desfiles independentes, com direcionamento mais certeiro para seu público-alvo e fora dos grandes eventos do setor

Redação Jornal de Brasília

02/10/2026 11h01

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Zé Takahashi/Divulgação

EDUARDO VIVEIROS
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Palco estreia em busca de um ritmo criativo que a indústria da moda perdeu. Duas semanas antes de a São Paulo Fashion Week começar mais uma edição, a capital paulista teve um grande desfile fora do calendário.

Na noite de quarta-feira, o estilista Luiz Cláudio Silva e o designer de acessórios Carlos Penna apresentaram a Palco, marca que criaram juntos, no salão da União Fraterna, no bairro da Lapa.
Eles fazem parte de um movimento crescente de nomes que preferem desfiles independentes, com direcionamento mais certeiro para seu público-alvo e fora dos grandes eventos do setor.

O endereço diz muito. Inaugurado em 1934 e tombado pelo patrimônio municipal 60 anos depois, o prédio abriga há décadas bailes de salão e de carnaval. Ali, a dupla montou um desfile que flerta com o teatro —em três atos, com trilha sonora tocada ao vivo e dramaturgia de frases ácidas pontuadas nas caixas de som.

Em cena com os modelos, as atrizes Bárbara Colen, Gabriela Loran e Aline Wirley faziam papel de musas da coleção. Em momentos distintos, o trio subia ao tablado e tinha suas roupas trocadas diante da plateia, em encenação que fazia da prova de roupa um enredo.

A coleção enxuta parte da alfaiataria casual, território pelo qual Silva já é conhecido e que agora é pensado a quatro mãos com Penna, novato no fazer do vestuário. As modelagens são amplas, em blazers, calças confortáveis e trench coats.

Abrigos esportivos fluidos, shorts e paletós curtos trazem o olhar para o calor brasileiro. O metal, assinatura de Penna, migrou para dentro da roupa, em aviamentos nos detalhes de prata, broches e decorações.

Os dois evitam falar em gênero, mas a mira está no guarda-roupa dos homens, território pouco explorado por Silva, que até aqui desenhava majoritariamente para o corpo feminino. “É um flerte direto com o masculino, que ainda tem pouca variedade de opções interessantes no mercado”, diz ele.

O desejo também é de consumidor. “Falo também por mim. Há uma vontade de homens por peças interessantes e com qualidade que, se você for procurar, vai encontrar apenas em marcas internacionais.”

A Palco nasceu de uma insônia. Há pouco mais de dois anos, recém-chegados de Minas Gerais a São Paulo, os dois amigos se viram morando no mesmo prédio, sem planejar. Silva passava por um período de saturação pessoal com o ritmo da indústria da moda, que acabou gerando um telefonema para o vizinho.

“Eu queria ter uma válvula de escape para experimentar coisas que não há tempo de fazer em uma marca que precisa ter resposta comercial”, diz Silva, que assina a Apartamento 03 desde 2006. Em 2014, a marca passou a fazer parte do Grupo Nohda, holding de moda tocada pela estilista e empresária Patricia Bonaldi.

A parceria entre os dois criadores da Palco é antiga. Há cerca de dez anos, Penna assina os acessórios dos desfiles da Apartamento 03, incluindo o da Rio Fashion Week, em abril. Uma colaboração que se transformou em forte cumplicidade criativa.

“Desenvolvemos esse processo, que funciona como um estudo muito precioso. Temos tempo de pensar, refletir, com liberdade criativa. É uma troca essencial”, conta Silva, sobre os diálogos que desembocaram na nova etiqueta.

No início deste ano, a colaboração ainda não tinha nome nem estrutura. O projeto tomou corpo mesmo nos últimos meses e agora, com a apresentação que eles chamaram de “primeiro ato”, voltam a pensar no mercado, com planos de lojas temporárias e vendas da coleção na internet.

Ainda assim, a estrutura deve se manter pequena, com lançamentos sem sazonalidade e produção mínima —algumas peças não devem passar de duas reproduções. Quase que ironicamente, o desfile da Palco aconteceu na véspera do lançamento da coleção de John Galliano para a Zara: o estilista britânico foi contratado para criar coleções a partir do acervo da gigante do fast-fashion.

“Tem muita oferta de produto que não se sabe de onde veio ou como foi feito. Isso não tem alma mais”, afirma Silva, justificando o motivo de mais uma marca de moda no mundo. “Em paralelo, há uma galera que quer entender de onde vem o que está comprando —tanto fisicamente quanto criativamente. Uma roupa que não tem data de validade, que você pode manter no guarda-roupa e depois doar para alguém.”

A dupla afirma haver uma preocupação com tecidos certificados e também couros vindos de curtumes com selos de rastreabilidade. Em paralelo, eles exercitam a curiosidade pela pesquisa de novos materiais —que, neste primeiro desfile, surge especialmente nos dois tops esculturais feitos de malhas estruturadas de fios de pneus de borracha.

“Tanto eu quanto o Luiz temos essa necessidade do tato, do manual”, conta Penna, conhecido pelo uso de matérias-primas pouco usuais na sua carreira de designer de joias. “Há muitos exemplos que fui catalogando, inclusive para todos os desfiles que fizemos juntos, e que nunca foram usados nesses anos. Estamos tirando tudo da gaveta.”

Um exercício que, como Silva afirma, é para se parecer com uma residência artística, longe das pressões de semanas de moda e das marcas principais de cada um deles. Alguns experimentos que não ficaram 100% voltaram para o ateliê para, com mais tempo, aparecerem no próximo ato.

“Queremos criar com liberdade, como fazíamos no começo de carreira, mas com uma estrutura que não havia na época e tempo para experimentar coisas que não sigam a cartilha do varejo”, diz Silva. Penna complementa: “Não é começar do zero. É começar de outro lugar”.

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