Glória Kalil conhece de perto as transformações da moda e do comportamento no Brasil. Formada em Ciências Sociais, começou a carreira nos anos 1960, na Editora Abril, passou pela indústria têxtil e, nos anos 1980, esteve à frente da chegada da italiana Fiorucci ao País. Ao longo das décadas, consolidou-se como uma das principais referências brasileiras em moda, estilo e comportamento.
De passagem na capital federal para participar do Estilo Brasília, Glória comandou o talk “O que permanece é o estilo: memória, referências e identidade”, ao lado de Cleuza Ferreira, fundadora da Magrella, com mediação da consultora de estilo e imagem pessoal Rosa Guimarães. Em conversa com o Jornal de Brasília, ela falou sobre as mudanças que testemunhou ao longo de décadas e sobre a relação cada vez mais imediata entre informação, comportamento e maneira de se vestir.

Para Glória, nenhuma transformação recente teve impacto tão profundo quanto a popularização do celular. Segundo ela, mais do que a chegada da internet, foi o momento em que o acesso à informação passou a caber na mão e a transformar cada indivíduo em uma espécie de central de notícias, referências e opiniões.
“Eu tenho a impressão que a grande virada, a grande mudança, pelo menos a última e a que mais mexeu, foi a entrada do celular. Não foi a internet, mas foi a hora que todo mundo passou a ser uma central de informação”, afirma Glória.
A mudança também alterou a relação das pessoas com a moda. Em um cenário em que tendências surgem e desaparecem em velocidade cada vez maior, Glória observa que o mercado passou a oferecer uma variedade inédita de possibilidades. De um lado, está o universo do luxo, com peças de alto valor e acesso restrito. De outro, o fast fashion, baseado na rapidez com que novas propostas chegam às lojas.

Para ela, porém, a velocidade não anulou a capacidade de expressão individual. Ao contrário, ampliou as opções disponíveis para quem deseja construir uma identidade por meio da roupa. “Eu acho que as pessoas estão se expressando bem, sim, através da moda e que a moda está oferecendo cada vez mais alternativas para as pessoas”, diz.
Nesse cenário, informação é uma espécie de ferramenta de autonomia. Conhecer referências, entender possibilidades e ampliar o repertório ajuda a fazer escolhas mais conscientes, independentemente do tamanho do orçamento.
“Eu sempre digo que, quanto mais informação você tem, melhor você se veste. É que nem uma linguagem. Quanto mais vocabulário você tem, melhor você se expressa. E com a moda é a mesma coisa”, explica. “Hoje todo mundo tem alternativas, com pouco dinheiro ou com muito dinheiro”, opina a jornalista.

A própria trajetória de Glória ajuda a explicar sua visão. Autora de livros como Chic, Chic Homem e Chiquérrimo, ela também foi pioneira no ambiente digital ao criar, em 2000, o site Chic, quando a internet brasileira ainda dava seus primeiros passos como espaço de informação sobre moda e comportamento. Hoje, mantém presença nas redes sociais e reúne cerca de 1,6 milhão de seguidores no Instagram, onde produz conteúdo de forma independente.
Depois de décadas acompanhando mudanças de costumes, estilos e códigos sociais, Glória também sabe que algumas referências permanecem justamente porque não dependem de tendências. Quando questionada sobre aquilo que nunca sai de moda, ela não escolhe uma peça de roupa, uma cor ou uma silhueta.
A resposta é mais simples e, para ela, mais permanente. “É difícil alguma coisa que nunca sai de moda, né? Mas eu acho que, se a gente disser que boa educação nunca sai de moda, é uma boa.”
Entre celulares, redes sociais, fast fashion e transformações aceleradas, Glória Kalil aposta, assim, em algo menos passageiro, repertório, informação e comportamento. Para ela, vestir-se bem está menos ligado à capacidade de seguir todas as tendências e mais à possibilidade de conhecer, escolher e se expressar.