O compartilhamento de maquiagem durante o Carnaval, hábito comum entre amigos antes de blocos e festas, pode favorecer a transmissão de conjuntivite e outras infecções oculares. O uso intenso de glitter, tintas faciais, piscinas e lentes de contato por longos períodos também contribui para o aumento dos casos no período de folia.
A transmissão ocorre principalmente pelo contato direto com secreções contaminadas. De acordo com o oftalmologista, Luiz Alberto, do Hospital Oftalmológico de Brasília (HOB), ao dividir pincéis, esponjas e aplicadores, a pessoa pode entrar em contato com resíduos infecciosos deixados por quem utilizou o produto anteriormente. “É uma transmissão direta. Não acontece pela via aérea, acontece principalmente pela secreção”, explica. O médico ressalta que não há diferença entre os objetos utilizados. Segundo ele, qualquer item compartilhado representa risco, já que o problema não está no produto em si, mas no contato com secreções contaminadas.
Além da maquiagem, outros comportamentos típicos do período elevam a exposição a vírus e bactérias. A maior frequência em piscinas, por exemplo, favorece a circulação de micro-organismos quando há pessoas contaminadas no ambiente. O uso inadequado de lentes de contato também preocupa. “Algumas pessoas chegam a dormir, tomar banho e passar os festejos sem tirar a lente dos olhos. Isso aumenta bastante a chance de infecção”, alerta. A conjuntivite viral é a mais comum nesse contexto. Segundo o especialista, o quadro costuma provocar vermelhidão intensa, secreção, ardência e lacrimejamento. Já a bacteriana é menos recorrente. “Ela representa menos de 10% dos casos e costuma apresentar um quadro purulento importante”, explica.
A conjuntivite alérgica também tem papel relevante, principalmente em pessoas mais suscetíveis e em situações de uso intenso de cosméticos. O médico relembra um episódio ocorrido na Bahia, quando pomadas capilares escorreram para os olhos após chuva e suor. “Isso acabou causando um quadro de conjuntivite alérgica importante”, destaca. Além da conjuntivite, o compartilhamento de maquiagem pode favorecer a transmissão de outras infecções oculares, como herpes ocular e blefarite, inflamação nas pálpebras causada por bactérias. O contato com secreções contaminadas também pode propiciar o surgimento ou agravamento de quadros de terçol e calázio, especialmente quando há uso coletivo de pincéis, esponjas e aplicadores.
Os riscos do glitter e da maquiagem vencida
Os produtos como glitter, tintas faciais e maquiagem artística podem aumentar o risco de irritações e lesões na córnea caso entrem em contato com os olhos. A oftalmologista Júnia Valle França, da Clínica Olhar Prime, alerta que esses itens exigem cuidado redobrado. “Esses produtos podem conter partículas irritantes e micro-organismos. Se entrarem nos olhos, podem causar desde irritação intensa até feridas na córnea, aumentando o risco de infecção”, explica. Segundo a médica, vírus e bactérias conseguem sobreviver de horas a dias nos aplicadores e superfícies dos produtos, especialmente em ambientes quentes e úmidos, como bolsas e nécessaires. “Produtos vencidos ou guardados em locais quentes e úmidos favorecem a proliferação de micro-organismos como fungos e bactérias, aumentando bastante o risco de infecções”, afirma.
Além disso, ela orienta que pessoas com sintomas evitem frequentar festas. “Quem apresenta vermelhidão, secreção ou ardor não deve ir a blocos, pois pode transmitir a infecção e ainda agravar o próprio quadro”. Os sintomas podem surgir entre um e sete dias após o contato. O tratamento dura, em média, de sete a dez dias, podendo se estender por até um mês em casos adenovirais.
A Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) orienta que, em casos de vermelhidão intensa, dor ocular, secreção abundante ou piora súbita da visão, a população deve procurar diretamente o Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF), o Hospital Regional de Taguatinga (HRT) ou o Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), sem necessidade de encaminhamento.
As Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) não possuem suporte para emergências oftalmológicas. Para atendimentos de rotina, a orientação é procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência após o feriado.
Como usar maquiagem com segurança no Carnaval:
- 1. Não compartilhar maquiagem ou pincéis
- 2. Lavar bem as mãos antes de se maquiar
- 3. Usar produtos próprios e dentro do prazo de validade
- 4. Evitar maquiagem se estiver com sintomas oculares
- 5. Não dormir com maquiagem
- 6. Evitar glitter ou tintas próximas aos olhos
- 7. Em caso de ardor ou vermelhidão, suspender o uso e procurar um oftalmologista