Há quem diga que pode ser loucura deixar uma área de formação para seguir o seu grande sonho. No caso da Mariana Mesquita e da Ju Morgado, essa máxima não poderia estar mais errada. Dois grandes nomes do barismo no Distrito Federal, elas escolheram o caminho menos óbvio e mais aromático dos cafés especiais.
Cientista política formada pela Universidade de Brasília (UnB), Mariana Mesquita descobriu a paixão pelo café ainda durante a graduação. Tudo começou com uma ida a uma cafeteria perto de casa, a convite de uma professora. No início, o gosto não conquistava o paladar, mas a forma como o produto era preparado já prendia a atenção. Aos poucos, o sentimento tomou conta e o amor não parou de crescer.
“Como cliente eu comecei a me interessar muito pelo jeito que as pessoas que trabalhavam lá. Não necessariamente o gosto do café me interessava tanto, mas eu ia lá quase todos os dias tomar chocolate quente e trabalhar de lá. E aos poucos via que os baristas iam me fazendo interessar mais pelo café, porque você passa a fazer parte da da cafetaria de alguma forma”, explica.
Após esse contato frequente, Mariana pediu para fazer alguns freelancers na cafeteria. De acordo com ela, o cenário unido no universo do café brasilense contribuiu para abrir outras portas. Mesmo com a mudança de área, a barista ainda une o olhar que adquiriu durante a passagem pela Universidade com o café.

“Tenho buscado algumas aproximações entre as duas coisas, não pelo café isoladamente, mas por essa coisa das cadeias produtivas alimentares, porque café abre muitas portas para você pensar para além dele. Acho que hoje em dia, comecei a entender qual o intercâmbio possível entre as duas áreas”, comenta.
A trajetória de Ju Morgado não é diferente. Jornalista de formação, ela deixou a assessoria de comunicação e seguiu o sonho de trabalhar com o café. Primeiro, começou como um hobbie e posteriormente se tornou um sentimento que tomou conta.
“Na hora do almoço gostava muito de sair do meu trabalho, não era um ambiente muito agradável para mim e saía para dar uma fugidinha. Comecei a frequentar uma cafeteria que ficava perto. Aí comecei a gostar de ir lá, vi que era um sabor diferente, comecei a me interessar”, relembra.
Primeiro, começou como um passatempo e posteriormente se tornou um sentimento que tomou conta. “Fiz um curso por hobby e depois eu decidi sair desse emprego e da profissão por um tempo, mas eu precisava pagar contas. Então decidi começar a trabalhar com isso, com hospitalidade, com serviço, com cafeterias”, destaca.
Para ela, depois de conhecer o mundo cafeeiro, foi impossível largar. “O bichinho do café quando pica, ficamos fascinado e realmente é um poço que você afunda e vai de uma vez”, brinca.
Protagonismo feminino
Segundo o Censo Agropecuário, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nos últimos anos o protagonismo feminino cresceu no setor cafeeiro nacional. O levantamento mostrou que, em 2017, mais de 40 mil estabelecimentos agrícolas brasileiros com produção de café são dirigidos por mulheres. O cenário no DF não difere do nacional.
Ju ressalta que há mulheres incríveis que fazem um trabalho de excelência, em que se inspira. “Às vezes me chateia que elas não tenham mais visibilidade ainda do que merecem, do que já tem algumas, mas devia ter mais. Essas outras mulheres que estão aqui fazendo o trabalho de formiguinha delas. Somos um grande formigueiro de mulheres gigantes e cada formiguinha tem seu valor incrível e eu fico muito feliz, de verdade”, celebra.
Durante a trajetória, Mariana explica que desde o começo teve contato com profissionais de qualidade. “Na minha experiência particular, tive muito acesso a essas profissionais de excelência desde o início. Acho que eu fui muito exposta a mulheres fazendo coisas tecnicamente muito boas desde sempre”, destaca.
Desafios
Apesar de ser um espaço cada vez mais ocupado por mulheres, ainda existem alguns desafios a serem superados. Um deles é o reconhecimento. “Eu diria que para as mulheres nessa profissão em específico, vejo muita dificuldade ainda de ser reconhecida quando ela está próxima de um homem. Tenho histórias de amigas minhas que estão na cafeteria trabalhando dentro da da estação, tem ela e um rapaz e aí chega o cliente e pergunta se ele pode fazer o pedido para ela, acreditando que ela é atendente e o rapaz é o barista, sendo que às vezes é o contrário”, lamenta Ju.
Além disso, também existe o obstáculo da valorização da carreira. Não há um salário-base estabelecido e regras específicas. Para se especializar cada vez mais, Ju explica que é preciso investir em equipamentos e cursos caros. “Não é uma profissão ainda reconhecida oficialmente. Acabamos inserido ali dentro de restaurantes, é como se as mesmas regras se aplicam para um bar e para a cafeteria, sendo que são dois serviços e negócios completamente diferentes”.
Mariana compartilha de uma visão similar. Para ela, a instabilidade ainda é um desafio. “Acho que a nossa área vive uma fase estranha. Sempre que alguém me pergunta qual é o maior desafio do meu trabalho, falo que é fazer do meu trabalho uma carreira. E que hoje eu me sinto muito contente vivendo de café. Vivo do que eu gosto de fazer. Vivo uma vida que eu considero muito digna, assim. Mas eu sei que a minha trajetória é muito única”.