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Estilo de Vida

Cultura ao ar livre nas asas do Plano Piloto

O Eixão do Lazer tem feito jus ao nome, com inúmeros projetos gratuitos, de diferentes estilos, ao longo de todo o trajeto.

Amanda Karolyne

16/05/2024 9h39

Eixão do Lazer

Foto: Amanda Karolyne

Aproveitar um domingo ao ar livre é um passeio bem brasiliense. É o que torna essa experiência ainda mais típica da capital federal, é explorar a diversidade cultural nas asas do Plano Piloto, no Eixão do Lazer. Todos os domingos, desde 1991, os eixos norte e sul do Eixo Rodoviário, uma das principais vias da cidades, ficam fechados das 6h às 18h, o que permite acesso livre aos pedestres e ciclistas. Atualmente, o evento oferece uma rica mistura cultural, que incluiu música ao vivo de diversos estilos musicais, tenda literária, opções gastronômicas e feirinha de arte, impulsionando não somente o entretenimento e a arte, mas também o comércio local.

O analista de sistemas Jayder Cardoso, 36 anos, a esposa Débora Dornelas, médica de 38 anos, e a filha Elis, aproveitaram bastante as apresentações musicais e a diversidade gastronômica oferecidadas ao longo do Eixão do Lazer. Os três conferiram o ponto do rock e o ponto do chorinho. “Nossa filha música e também ama dançar. Paramos aqui para tomar um chopp, mas também apreciamos muito o chorinho, e resolvemos ficar um pouco para assistir à performance”, compartilha Jayder.

Jayder Cardoso, Débora Dornelas e Elis: momento em família no Eixão do Lazer. Foto: Amanda Karolyne.
Jayder Cardoso, Débora Dornelas e Elis: momento em família no Eixão do Lazer. Foto: Amanda Karolyne.

Débora considera um luxo para os brasilienses e turistas da cidade terem a oportunidade de desfrutar de várias performances musicais em um único dia, de forma gratuita, enquanto degusta diferentes pratos. “Passamos pelo Vivendo e Batucando, que estavam fazendo batuques ao longo do Eixão. Vimos um monte de coisas diferentes”, diz ela. Débora e o marido estavam, inclusive, refletindo sobre como é bom ter acesso a tudo isso. “A gente acha maravilhoso ocupar a cidade. Não sei se há algo assim em outro lugar, mas amo Brasília por ter isso aqui”, acrescdenta Débora.

A arquiteta Aretha Rodrigues, 28 anos, acabou de mudar para Brasília e já tornou o Eixão do Lazer parte de sua programação cultural aos fins de semana. “Sempre digo aos meus amigos que é um enorme privilégio ter essa qualidade de vida, poder vir para um espaço ao ar livre, desfrutar de música, conhecer bandas e experimentar diversas comidas”, conta ela. Aretha tem frequentado o evento desde que se mudou para a cidade, muitas vezes sozinha. “Quando meus amigos vêm, encontro com eles quando aqui”.

Aretha Rodrigues é frequentadora assídua Eixão do Lazer. Foto: Amanda Karolyne
Aretha Rodrigues é frequentadora assídua Eixão do Lazer. Foto: Amanda Karolyne

Vinda de Florianópolis, a nova moradora do quadradinho aprecia a facilidade em encontrar eventos assim em Brasília. “É bem mais difícil encontrar atrações assim por lá”, afirma. Aretha ama música ao vivo e de estar ao ar livre, então frequentar o Eixão do Lazer virou seu programa predileto. “É muito legal ver isso sendo incentivado aqui em Brasília”.

Rock, samba, chorinho e jazz

E para os apreciadores de música ao vivo, não faltam opções diversificadas ao longo de todo o trajeto. Rêmulo Dourado, proprietário da Dourado Beer e um dos organizadores do Rock no Eixão, todo domingo, leva uma banda regional de rock para se apresenta no espaço –– na altura da 112 Norte, que reúne comerciantes de comidas variadas, como arroz de carreteiro, carne de sol, espetinho, galeteria gaúcha e yakisoba. O lugar virou o ponto do rock. “O Eixão tem o chorinho, tem o jazz. E aqui a gente escolheu ser o ponto do rock. Isso mostra a diversidade de Brasília”, defende Rêmulo, que pormove o Rock no Eixão há três anos.

Rêmulo Dourado, um dos organizadoers do Eixão do Rock. Foto: Amanda Karolyne.
Rêmulo Dourado, um dos organizadoers do Eixão do Rock. Foto: Amanda Karolyne.

O samba marca presença no Eixão, graças a Ugo Todde, organizador do Samba no Eixo, promovido desde o fim do ano passado. “Sou um forte defensor desse Eixão do lazer. Considero de extrema importância ter essa cultura pulsante aqui”, destaca. Para ele, é essencial ocupar esse espaço e inundá-lo de cultura, com diferentes estilos e, principalmente, e abrir espaço ao comércio local. “O Eixão é um espaço muito grande, cabe muita gente, tem espaço para todo mundo trabalhar, de todos os estilos, tanto na Asa Norte, quanto a Asa Sul”, aponta.

O chorinho –– o mais novo patrimônio cultural imaterial do Brasil –– também tem seu lugar no Eixão do Lazer, na área verde na altura da 108 Norte desde o fim do lockdown. “Os músicos não tinham onde tocar. Como produtor de eventos, decidi reunir os amigos para tocar no gramado do Eixão”, conta Gilson Mendes Magalhães, organizador do Chorinho no Eixão.

Chorinho no Eixão do Lazer. Foto: Amanda Karolyne.

Não demorou muito para o projeto ganhar mais e mais adesão do público, atraídos pela qualidade musical dos instrumentistas que tocam por lá todos os domingos. “A gente está aqui no Eixão como um dos precursores desse movimento cultural”, conta Gilson. “É mais uma atração, mais um ponto de diversão para o morador de Brasília e também para promoção da economia criativa”.

Outros estilos musicais também podem ser encontrados pelos 14 quilômetros do Eixão do Lazer, como reggae, e até mesmo jazz. O coletivo Superjazz realiza o Jazz no Eixão desde 2023, com músicos e DJs do gênero musical. Neste domingo (18/5), das 12h às 17h30, na altaura da 207 Norte, a edição do Eixão do Jazz contará com Paulo Black Quarteto, Coletivo SuperJazz e DJs Mário Sartoi e Dudão Melo. Haverá também feirinha com expositores de vinil, além da praça de alimentação com comércio local.

Para o produtor musical e DJ Dudão, a importância do Eixão de Lazer extrapola o próprio Eixão. Nascido em São Paulo e com família em Goiânia, ele destaca que a Paulista fechada só aconteceu por conta do Eixão Cultural. “É uma referência nacional, um exemplo de sucesso da ocupação do espaço público por meio da arte”.  O coletivo pretende lançar uma campanha de crowdfunding para que os apoiadores ajudem a manter o espaço cada vez melhor.

Escritores Eddy Samadhi e Jairo Mozart na Tenda Literária, no Eixão do Lazer. Foto: Amanda Karolyne.
Escritores Eddy Samadhi e Jairo Mozart na Tenda Literária, no Eixão do Lazer. Foto: Amanda Karolyne.

Além de música, o Eixão do Lazer também oferece uma oportunidade para os escritores locais interagirem com o público. A Tenda Literária, montada na área verde próxima à 208 Norte desde novembro do ano passado, proporciona um ambiente acolhedor para os leitores se encontrarem com autores da cidade e descobrirem novas obras literárias. A Tenda é montada duas vezes por mês, sempre no segundo e no terceiro domingo.

“Nós queríamos pensar uma série de atividades que pudessem dialogar e nos aproximar mais do público. Quer dizer, você tem dois grandes eventos literários na cidade, que são a Feira do Livro e a Bienal. Então você não vai ficar esperando tantos meses para poder ter contato com seus leitores”, provoca Marcos Linhares, presidente interino do Sindicato dos Escritores.

O espaço não apenas permite uma troca estreita entre autores e leitores, como também incentiva e contribui com novos escritores. Marcos lembra que, em dezembro, um rapaz que visitou a Tenda Literária. “E é escritor e não tinha coragem de tirar o livro do computador”, comentou. Depois de conhecer os colegas escritores do sindicato, teve a força de vontade para lançar o livro. “É muito legal essa possibilidade de trocar experiências com os nossos leitores e com escritores em potencial”, afirma. Quem já tem um livro escrito, mas não sabe como publicá-lo, também pode encontrar apoio e assessoria na Tenda Literária. O serviço varia entre R$ 200 e R$ 600.

Corpo em movimento

Projeto Rio Aberto a Céu Aberto, no Eixão do Lazer. Foto: Amanda Karolyne
Projeto Rio Aberto a Céu Aberto, no Eixão do Lazer. Foto: Amanda Karolyne

Além de shows ao vivo, gastronomia e literatura, ao longo do Eixão do Lazer é possível encontrar vários grupos praticando algum esporte, yoga ou algum tipo de dança. A Rio Aberto a Céu Aberto é um grupo que também está realizando encontros aos domingos, para trabalhar a inteligência corporal. Maria Rita Avance, é diretora do Rio Aberto Brasília, um sistema psico-corporal de desenvolvimento humano criado na década de 60 por uma psicóloga argentina. “A gente desenvolve várias atividades como essa roda aberta de movimento vital expressivo”, conta. Esta é considerada uma Yoga das Américas, e as pessoas que vão ao Eixão do Lazer são convidadas a participar da roda.

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