Fantasmas no Teatro Nacional, fantasmas dos candangos, de uma arquiteta da construção da cidade, lobisomens e outros contos de horror escritos nas ruas da capital federal. Brasília, mesmo com apenas 65 anos, já foi marcada por suas assombrações particulares. A equipe de reportagem do JBr conversou com um autor nacional que se debruçou sobre algumas das lendas urbanas da cidade. Além disso, uma historiadora explicou como esses contos moldam e são moldados pela capital.
Thiago de Souza é autor do livro “Conheça o Lobisomem do Teu Bairro”, no qual busca contar mais sobre o realismo fantástico das cidades brasileiras. O autor lembra do famoso lobisomem de Ceilândia, registrado por moradores em foto e em vídeo. Caso este que está registrado na obra. “Existia um relato de um lobisomem sendo avistado pela população, e um dia houve uma agitação na rua. Alguém foi ver os cachorros muito nervosos e encontrou uma criatura grande, peluda, que variava entre andar em quatro e em duas patas, exatamente como as descrições do lobisomem”, conta. Thiago tem um fascínio por essa história. “É por isso que gosto de defender tudo isso como patrimônio material. Quem oferece isso são as cidades e a experiência das pessoas, a partir de seus traumas e visões de mundo”, ressaltou.
Ele ainda comentou que os contos brasilienses contam com uma diversidade cultural que alimenta as lendas da capital. “Brasília é um núcleo de convergência de culturas de todo o Brasil. Você mistura catimbó nordestino, catolicismo, religiões evangélicas, religiões de terreiro, mitologia indígena. A cidade é nova e antropofágica, absorveu tudo”, explicou. Outros relatos que ele lembrou, envolvem uma bailarina do Teatro Nacional que morreu atropelada, mas permanece ligada ao local e ainda da Loira da W3, que causa arrepios nos taxistas até os dias atuais. “É muito interessante ver como a cidade oferece essas histórias e mantém viva a memória sobrenatural.”
Fantasmas e patrimônio
Thiago acredita que esses contos fantasmagóricos dizem respeito à cidade, mas, principalmente, às pessoas que foram apagadas da história. Alguns desses relatos ele documentou em sua página ‘O Que Te Assombra?’ no Instagram, como o da Dona Esperança, a primeira sepultada extra-oficialmente na região onde hoje fica o cemitério Campo da Esperança. Oficialmente, Bernardo Sayão, um dos fundadores de Brasília, foi o primeiro homem sepultado no cemitério.
Ainda sobre o cemitério da capital, Thiago mencionou o triste caso de Ana lídia, mas contando como ela foi considerada uma milagreira. Em setembro de 1973, essa criança foi brutalmente violentada, sofreu a pior das violências e passou a ser lembrada em uma dimensão que Thiago considera sobrenatural e etérea, algo que faz parte desse universo e não pode ser explicado pela concretude do cotidiano.
Thiago considera que o sobrenatural ganha força justamente em Brasília, por ser uma cidade que respira burocracia e leis. “Eu acho que esse poder do sobrenatural é muito interessante e se torna ainda mais fascinante na capital, por ser uma cidade que está no último estágio do que é racional, do que é concreto, que é a lei. É aí que nasce tudo”, afirma. Ele considera que esse contraste torna as lendas da capital tão curiosas. “Ter um monte de fantasmas em uma cidade onde se fazem as regras. Tem algo mais sem regra ou que não respeita nenhuma regra do que um fantasma? Esse é um paralelo incrível das histórias sobrenaturais de Brasília.”
O contador de histórias
Thiago é roteirista, compositor e advogado, e acredita que todas as lendas urbanas da capital têm relação com os símbolos e signos muito próprios de Brasília. São histórias que se misturam à arquitetura da cidade, na medida em que ela se desenvolve. “Muitas histórias estão ligadas à construção da cidade, a figuras que eram vistas em Brasília. Tem por exemplo, a história do fantasma do Ulysses Guimarães. Isso é maravilhoso”, citou. Outra lenda brasiliense por ele contada, fala sobre o fantasma do Dragão da Independência, no Palácio do Planalto, que teria caído e perdido a cabeça. Essa é a história de um soldado de um grupamento do exército responsável pela guarda da presidência da república. “Ele fica lá aparecendo todo fardado, sem cabeça. É incrível, parece um cavaleiro medieval.”
Esses e outros contos se conectam ao próprio cenário da capital. Outro exemplo dado por ele, é o de uma Arquiteta de Branco, uma fantasma que não chegou a ver a conclusão do trabalho ao qual dedicou seus últimos anos durante a construção de Brasília, depois que faleceu acometida com uma tuberculose. As aparições dela acontecem entre o Museu Nacional e a Biblioteca Nacional. “Ela dedicou os últimos anos de vida para não ver isso pronto. Tem também os candangos que foram soterrados na construção de Brasília.” Para Thiago, as histórias da capital carregam um paralelismo próprio do tempo de sua construção.
Thiago tem um documentário feito em parceria com a Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp sobre cuidados paliativos — tema que o aproximou ainda mais das reflexões sobre a morte, o insólito e seus efeitos colaterais, as lendas e tudo aquilo que permanece inexplicável. Mas nada o marcou tanto quanto a época em que sua tia morreu de Covid-19, evento que o abalou muito. “Eu resolvi chamar uns amigos da época para montar um acervo de histórias sobrenaturais da minha cidade natal, Campinas (SP), muito inspirado em um livro chamado Assombrações do Recife Velho, do Gilberto Freyre.”
Para ele, o que realmente importava era encontrar histórias que se conectassem ao desenvolvimento social e urbano das cidades. “As histórias sobrenaturais de todos os lugares têm uma íntima relação com o desenvolvimento sociourbano delas”, afirma. Assim, partiu de Campinas para a capital paulista, depois seguiu para o Rio de Janeiro — e essa jornada o levou até a capital federal.
O projeto, que inicialmente seria apenas sobre assombrações na internet, acabou ganhando outra dimensão e se tornando também um importante promotor de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento de atividades em cemitérios e centros urbanos. Hoje, com três livros publicados e outros em andamento, Thiago é pesquisador de cemitérios e integra a Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais.
Como surgem essas lendas
Para a historiadora Tupá Guerra, especialista em demonologia, as lendas urbanas de Brasília não surgem por acaso: “Eu acho fascinante ver como essas lendas vão surgindo, porque elas têm algum fundo de outras questões. Muitas falam muito sobre as violências que a cidade passou”. Ela considera que os relatos fantasmagóricos funcionam como uma ferramenta de sobrevivência social, como um meio que a população arranja para lidar com lidar com as coisas que não entendem, principalmente quando se trata de histórias trágicas. A especialista acredita que por trás de cada mito há um trauma coletivo ainda elaborando seu lugar na memória da capital.
Tupá ressalta que é importante entender que as lendas não são “inventadas” por uma pessoa só, elas vão sendo criadas de forma coletiva. “Eu acho particularmente interessante, porque é uma coisa que muitas vezes me perguntam sobre os candangos que foram enterrados na construção, porque caíam no Congresso Nacional e eram enterrados lá”. Como ela descreveu, dizem que fantasmas assombram os corredores da Esplanada dos Ministérios, já que supostamente, se algum trabalhador passava mal ou caía para dentro das fundações do Congresso, a obra não parava de fazer a retirada da pessoa, sendo assim, ela era enterrada lá. “Na prática, não teria como deixar um corpo no meio do concreto, porque iria abalar a estrutura da construção.
Entretanto, Tupá destaca que a lenda surge baseada no fato de que morreram muitas pessoas na construção de Brasília. Ela segue explicando que talvez, a lenda tenha surgido, devido às condições de trabalho que na época eram muito ruins. A historiadora relata sobre um conto de um massacre que aconteceu na Vila Planalto, de uma construtora chamada Pacheco Fernandes que tinha o alojamento nã região com cerca de 1.300 operários. “Já na reta final da construção de Brasília, eles queriam forçar os operários a não saírem no dia de descanso deles para não irem se divertir. Eles desligaram a água para que ninguém pudesse tomar banho, serviram comida estragada e os operários se revoltaram”.
Ela continuou contando, que uma Guarda Especial de Brasília foi mandada na época, e começou a espancar todos eles. Mas os trabalhadores receberam a ajuda de outros funcionários que ainda não tinham se revoltado. “Naquela noite os policiais voltaram no acampamento armados com mais gente e abriram fogo contra os trabalhadores que estavam dormindo”, pontuou. Oficialmente, nada disso foi registrado, mas essa é mais uma das histórias que ficaram na memória dos moradores da capital e são passadas para a frente, virando lenda urbana da cidade. “O medo do desconhecido muitas vezes se traduz em lendas urbanas, em lendas no dia a dia”, finalizou.