Dizem que o ano só começa após o Carnaval. Para os foliões, depois dos cinco dias de celebração, vem o cansaço do corpo e a volta à rotina. Entre a desidratação severa e a fadiga muscular, o desafio agora é desinflamar o organismo de forma segura. A equipe de reportagem do JBr conversou com especialistas para entender o que fazer para se recuperar de cinco dias de muita festa.
A nutricionista Bruna Prado, especialista em emagrecimento e hipertrofia, explica que o corpo humano já possui um sistema de desintoxicação altamente eficiente. Logo, nessas horas de “pós-folia”, o corpo não precisa de ajuda externa para o detox. “O fígado transforma substâncias tóxicas em compostos que podem ser eliminados, enquanto os rins filtram o sangue e eliminam resíduos pela urina”, afirmou.
Ainda segundo ela, o intestino e os pulmões também participam desse processo. Entretanto, no pós-carnaval, o que acontece não é que o corpo esteja “sujo”, mas sim sobrecarregado por álcool, noites mal dormidas, desidratação e excesso de açúcar e ultraprocessados. O que ele precisa não é de um “detox milagroso”, mas de condições adequadas para funcionar bem: hidratação, alimentação equilibrada, sono e organização.
Bruna reforça que, na volta à rotina, o que faz diferença é a combinação de hábitos: ingestão suficiente de proteína, fibras naturais e alimentos ricos em antioxidantes. “A primeira semana pós-carnaval deve ser de reorganização, não de punição”, indicou. Sobre a recuperação de danos específicos, ela detalhou que o álcool aumenta a diurese e favorece a perda de eletrólitos como sódio, potássio e magnésio. Portanto, além da água, podem ajudar itens como a água de coco natural, caldos leves e soluções caseiras. “A hidratação precisa ser constante ao longo do dia”, frisou.
O erro da compensação radical
A nutricionista Danielle Luz Gonçalves, coordenadora do curso de Nutrição do Centro Universitário Uniplac, também reforçou a mensagem de que o corpo é fisiologicamente preparado para lidar com excessos pontuais. “O que determina saúde não é um fim de semana, mas o padrão mantido ao longo do tempo”, pontuou.
A especialista acrescentou que o maior erro é a compensação radical após o feriado. “Muitas pessoas tentam “pagar” o exagero com jejum prolongado, restrição severa de carboidratos ou dietas líquidas”, disse. Entretanto, Danielle destacou que isso desregula ainda mais o metabolismo, aumenta o risco de compulsão e pode intensificar o cansaço. Ela salientou que a recuperação não se faz com punição alimentar, mas com organização.
Estratégias para o equilíbrio metabólico
Para Danielle, não existe alimento milagroso ou suco detox que substitua a rotina. A nutricionista indicou que a primeira semana pós-excesso deve priorizar proteínas de boa qualidade, vegetais variados, frutas naturais e gorduras boas. “É o conjunto de hábitos que modula a inflamação, regula a glicemia e melhora a disposição”, recomendou. Ela indicou que a prioridade devem ser alimentos como ovos, frango, peixe, leguminosas como feijão, tubérculos e fontes moderadas de carboidratos complexos.
Para evitar neste período, ela citou as bebidas alcoólicas, excesso de açúcar, frituras, ultraprocessados e o exagero de cafeína. “Também não recomendo estratégias de restrição extrema. O organismo precisa de equilíbrio, não de novo estresse metabólico”, declarou. O conselho da especialista para quem foi às ruas se divertir é não tentar compensar os dias de curtição, mas se reorganizar. “Um período pontual de excesso não define sua saúde. Hidrate-se, durma melhor, faça refeições estruturadas e retome gradualmente a rotina de movimento”, finalizou.
O cansaço pós-Carnaval
Danilo Munhóz, médico coloproctologista, apontou que é comum as pessoas ficarem gripadas ou com viroses logo após o feriado. “Durante o Carnaval ocorre uma combinação de fatores que impactam a imunidade. Como a privação de sono, maior exposição a aglomerações, consumo de álcool, alimentação irregular e desidratação”, citou. Ele também afirmou que o sono inadequado reduz a produção de citocinas e a atividade das células de defesa, enquanto o álcool e o estresse físico aumentam o estado inflamatório do organismo. Por isso ele considera que a imunidade não “cai de repente”, mas funciona pior exatamente quando a exposição a vírus aumenta.
Nessa maratona de folia, com as pessoas dormindo pouco e mal, os hormônios e metabolismo desregulam. Segundo Danilo, há aumento da grelina, que estimula a fome, e redução da leptina, ligada à saciedade, levando a maior desejo por alimentos calóricos. Além disso, o cortisol também sobe, favorecendo retenção de líquidos e sensação de inchaço. O intestino também pode ficar mais sensível, com gases, constipação ou diarreia. Para a recuperação, a recomendação do especialista também reforça as dicas das nutricionistas sobre regularização do sono, hidratação, evitar álcool por alguns dias e retornar gradualmente à rotina alimentar e física.
Recuperação do corpo e do bem-estar mental
Para quem curtiu os blocos, é preciso encontrar uma boa estratégia de recuperação que para algumas pessoas, envolve mais do que a mesa. A professora Marisa Ferreira Gonçalves, de 24 anos, contou que, mesmo em um Carnaval mais tranquilo como o que teve em 2026, o cuidado com o corpo foi essencial para aguentar o calor atípico de Brasília. “Independente de como você curte, você anda muito. Cuidar dos pés é o primeiro passo. Eu precisei de banhos e escalda-pés após tantos pisões. O segredo é voltar para a rotina de academia, se alimentar melhor e, principalmente, ter uma boa noite de sono depois de quatro dias virados”, relatou.
Marisa acredita que para a recuperação pós-Carnaval, também é interessante olhar para além do corpo, mas para o bem-estar mental após a intensidade das ruas. “Vi muita gente indicando banhos energéticos para aliar o cuidado físico ao emocional e espiritual. O Carnaval é uma época maravilhosa, mas que nos coloca em situações de tensão e gasta muita energia que nem sempre repomos na hora”, disse. Para ela, depois de dias frequentando a bloquinhos e curtindo a folia, esse é o momento de tomar o que se referiu como o ‘banho premium’, comer uma comida boa e fazer essa limpeza para voltar ao eixo e poder seguir com a rotina.
SAIBA MAIS
Quando procurar ajuda médica?
O cansaço já é esperado depois de uma maratona de blocos, mas é preciso estar atento à diferença entre a ressaca comum e a intoxicação alcoólica severa. De acordo com informações do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF), sintomas como vômitos persistentes, confusão mental, sonolência profunda ou dificuldade para acordar são sinais de alerta. Para casos como esses, a orientação é buscar atendimento imediato em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou emergência, pois há risco de depressão respiratória e coma alcoólico. A combinação de álcool com energéticos é um agravante, pois mascara a embriaguez e eleva o estresse cardíaco.