Duas mulheres pretas são responsáveis pela direção do documentário ‘Elza Infinita’, que celebra a vida e carreira de uma das maiores cantoras do Brasil, Elza Soares, considerada como ‘A melhor cantora do milênio’, pela rádio BBC de Londres em 2000.
Formada em jornalismo, Natara Ney, de Olinda, Pernambuco, 57 anos, foi a primeira confirmada no projeto. Na faculdade, conheceu um grupo de teatro e se juntou à atividade durante um tempo, prática fundamental na formação e atuação posterior na obra sobre Elza.
Erika Cândido, 41 anos, nascida no Rio de Janeiro, criada no bairro Vicente de Carvalho aos pés do Morro do Juramento, foi convencida por Natara a se juntar ao projeto. De início, só topou produzir, por não sentir confiança no posto de direção. Felizmente, a comunicóloga não perdia por esperar o que seria capaz de fazer no documentário.
Filha da Eliane e do Paulo, ela também é mãe do Gael. Formada em jornalismo e comunicação social, foi estudar cinema dentro da favela, em uma comunidade chamada “Vidigal”, localizada no Rio de Janeiro, em um grupo chamado “Nós do Morro”.
Entre 2004 e 2005, realizou seu primeiro curta como estagiária de produção. Erika possui 20 anos de carreira e já passou por todos os setores que contemplam a produção de uma obra audiovisual. Dedicou-se nesses 20 anos de carreira ao cinema negro e periférico.
A jornada do documentário
“Cara, você tem quase 20 anos de cinema, sabe? Você tira um filme do papel e coloca na tela das pessoas. Então assim, você vai dirigir comigo.”, disse Natara à Erika na conversa que convenceu a colega a entrar no projeto.
A comunicadora conta que já conhecia Natara de outros projetos, e foi nessa parceria que suas narrativas foram potencializadas.
“O Elza foi dirigido por duas mulheres negras”, diz Erika.
A diretora relata que queria gestar esse filme junto com outras mulheres negras. “Esse foi o nosso compromisso com Elza.”, afirma.
Segundo a Erika, Elza inundou sua vida na pandemia, momento onde todos tiveram de se redescobrir. Para ela, o encontro foi a catarse necessária para ela ter co-fundado a Kilomba Produções, uma produtora de mulheres negras que abarca, acolhe, desenvolve e produz projetos realizados por pessoas negras.
“A Kilomba vem de um sonho desde que conheci o cinema negro. Desde que eu estive de frente com essa possibilidade de ver preto escrevendo. De ver preto na tela. De ver preto na técnica. Eu olhei para aquilo e falei de um dia gostaria de ter um espaço que fosse possível que as pessoas negras pudessem escrever com conforto e saúde.” destaca.
A diretora relata que a Kilomba está em sua vida há três anos. Dentro da Kilombo, está ela e a sua amiga de longa data Monique Rocco, que é uma produtora executiva preta, que atualmente mora em São Paulo.
“A Kilomba parte de um lugar de sonho.”, diz. Erika conta que Natara entra para a Kilomba para potencializar também esse lugar de dirigir, roteirizar e produzir.
“Eu olho para ela e sinto essa vontade de criar, produzir. Ela é essa força”, afirma a diretora Erika Cândido.
O teatro deu todas as ferramentas para Natara, sem o teatro ela não seria a profissional que é. O teatro é o fundamento para ela. Cursou a faculdade em um período onde cotas eram inexistentes. Bolsas, então, nem se fala. A possibilidade vigente era o financiamento. A diretora conta que sua mãe fez um grande esforço. Em um determinado momento ela começou a procurar estágio para poder pagar a faculdade. Com isso, apareceu um estágio na televisão, TV do Estado, TV Pernambuco. A jornalista conta que o estágio pagava muito bem, pagava mais que os outros, com isso pegou a vaga de edição.
“A vaga que ninguém queria fazer na realidade. Ninguém queria ficar na edição”, diz a diretora Natara Ney.
Durante o período que trabalhou na edição, Natara contou que conheceu algumas pessoas que faziam cinema em Pernambuco, nomes como: Hilton Lacerda, Lírio Ferreira, Paulo Caldas, entre outros grandes nomes do cinema brasileiro.
Com isso, os cineastas iniciaram programas de televisão como uma linguagem que não era aquela formal. Natara diz que foi aí que começou a assistir filmes e curtas-metragens do Brasil inteiro, que foi dando uma certa formação de audiovisual.
Depois de um certo tempo na televisão, a diretora saiu da televisão e começou a trabalhar fazendo documentários e videoclipes.
Natara migrou para o Rio de Janeiro depois da faculdade. O seu primeiro longa metragem foi “O Rap do Pequeno Príncipe”, nos anos 2000. A diretora fazia muitas assistências e montagens, e assim foi montando seus próprios filmes. Trabalhou em alguns filmes com Domingos Oliveira, e assim foi tentando misturar sobrevivência com algo que ela queria expressar diretamente. E algum tempo depois a jornalista conta que começou a escrever.
Ela afirma ainda que sempre se sentiu oprimida no espaço do audiovisual, achava que trabalhar na edição era o máximo que ia conseguir. Mas depois de um tempo, graças ao cinema negro, a diretora desabafa:
“Graças a associações negras comecei a perceber que um corpo como o meu podia escrever e dirigir, então comecei a escrever e dirigir coisas.”
Elza Infinita
O ‘Elza’ nasce dessa relação de escrever e dirigir coisas e a possibilidade da cineasta de se enxergar como narradora. Após realizar alguns trabalhos com Jorge Furtado, cineasta brasileiro que indicou a diretora para esse trabalho. É um projeto da produtora Sarau Cultura Brasileira, que a base é o teatro.
Natara diz que tinha 5 dias para filmar tudo. O roteiro é da dramaturga brasileira Dione Carlos.
A diretora conta que elas pegaram as atrizes do ‘Elza’ e através delas contar sobre a artista partindo de uma nova premissa, não o que já se sabia da artista.
O roteiro da dramaturga Dione Carlos baseia-se em Elza sendo um prisma. “Nas Elzas que nós somos.”, diz Natara.
A jornalista relembra que a equipe foi à casa da artista, na época a cantora não estava saindo de casa, era um período de pandemia, tudo assustava.
Elza sempre foi generosa
A diretora fala que a equipe teve todo o cuidado com a lenda e ela fala que Elza estava cansada de ficar em casa.
Quando a comunicadora Érika chega com “Elza Infinita”, e começa a estudar a trajetória da artista, ela diz que ouvir dela em vida o que a construiu, o que ela devolve para o mundo enquanto potência, enquanto mulher preta, enquanto sambista, enquanto poeta.
“A mulher era uma máquina de realizar os próprios sonhos”, diz Erika.
A diretora conta que Elza transbordou para esse lugar da potência.
“Elza é semente.”, diz a diretora do documentário sobre a vida de Elza Soares.
Colaboraram: Evellyn Luchetta