Amigo para todas as horas, generoso, grande artista, de sensibilidade ímpar, divertido, engraçado, dedicado e muito, muito talentoso: é assim que o artista plástico brasiliense Pedro Ivo Verçosa será lembrado por seus amigos. Dez dias após sua morte -— em casa, em seu aniversário de 34 anos —, o Jornal de Brasília homenageia o pintor, desenhista e escultor que tanto marcou uma geração de artistas do Distrito Federal. Em sua última exposição em Brasília, em janeiro, Pedro Ivo ocupou a Alfinete Galeria com 72 telas.
“Pedro começou a devorar a pintura”
Pedro se formou em Artes Visuais pela Universidade de Brasília (UnB), após uma incursão pelo Desenho Industrial — onde conheceu alguns dos amigos com os quais compartilhou sua vida pessoal e profissional.
“Ele manteve viva a ponte entre a galera das artes e a do desenho. Pedro começou a devorar a pintura. Ele tinha uma observação muito rica e precisa”, diz o designer Eudaldo Sobrinho. Nas Artes Visuais, Pedro iniciou um trabalho incansável. “Ele escrevia e lia muito; sempre foi investigador. Conversar com ele era enriquecedor”, completa o amigo.
Depois da formatura, Pedro, Eudaldo, Felipe Cavalcante, Gabriel Menezes e Virgílio Neto — outros três amigos também da UnB — foram morar juntos em Londres, em 2010. “Lembro que ele acordava de madrugada e ia pintar na varanda, no frio. Ele era apaixonado pela pintura”, diz Eudaldo.
“Uma família grande”
“Ele e eu dividimos o mesmo teto em muitas ocasiões e cidades diferentes. Isso transformou nossa amizade em um sentimento de família difícil de explicar mas muito fácil de sentir. O Pedro é uma casa pra mim. Uma casa iluminada, com as portas abertas e cheia de amigos”, afirma o amigo e designer Gabriel.
Em 2011, de volta a Brasília, Pedro, os amigos e outros três artistas — Lucas Gehre, Rafael Lobo e Ricardo Ponte -— fundaram o Espaço Laje, um ateliê coletivo na W3 Sul. “Somos uma família grande”, conta o amigo, designer e ilustrador Felipe Cavalcante.
Mais tarde, em 2017, Pedro e os amigos fundaram em São Paulo o Espaço Breu — um “ateliê expandido” que recebia exposições.
“Como artista generoso, Pedro estava sempre aberto — e abria também as portas de seus ateliês para receber e ver o trabalho de outros artistas. Para conhecer o processo artístico de cada um e contar como era o dele. Isso era o que ele chamava de troca — e o Pedro acreditava muito nessa troca. Era o jeito de se conectar com as pessoas”, contou o artista e amigo Júlio Lapagesse.
“Esse contato parecia ser algo essencial para ele, e conectar as pessoas era apenas uma de suas habilidades. Gostava do espaço coletivo, do trabalho em conjunto, da força de um grupo. Não à toa foi tão importante em vários”, completa Gabriel.
Markus Avaloni, produtor da série um.artista, concorda: “Ele reunia as pessoas. Além de artista, o Pedro foi um pólo irradiador de pintores em Brasília”, ressaltou.
Eudaldo acredita que a influência de Pedro Ivo foi decisiva para todos os que estudaram e trabalharam com ele. “A partir dele, começou uma geração de artistas mais agilizados, com repertório e vocabulários maiores, e um domínio maior do meio de produção. Pedro mudou a minha relação com a arte — e ter visto ele trabalhando foi decisivo para mim. Acredito muito na importância dele para a arte de Brasília e do Brasil. Ele se doou para a arte e era incrível: nas palavras, nos gestos, na dedicação. Um grande artista e um grande amigo.”
A amiga e artista visual Bruna Neiva acrescenta que Pedro tinha “um interesse singular e uma capacidade magnética de criar conexões”. “De tudo o que passamos juntos nesses muitos anos, o que vem mais forte é o quanto o Pedro me fez rir, me fez dançar, e como lançou no mundo o olhar dele”, lembra.
Segundo ela, Brasília não seria a mesma sem a inquietude e a sensibilidade de Pedro. “Ele sempre quis fazer Brasília fervilhar, sempre acreditou nos artistas e realizadores daqui. Não tenho dúvidas de que, onde pisar um artista brasiliense, vai ter uma pincelada do Pedro ali.”
“Como ondas”
“Pedro Ivo deixava as coisas baterem nele como ondas. Era bonito de ver, mas angustiante também. Ele se doava muito. Era efervescente. Na última vez que o vi, estava pintando três telas por dia”, relata Eudaldo. Lapagesse resume: “Pedro retratava o afeto”.