SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Colegiais com corpos tão sarados que parecem adultos, tensão sexual latente, doses de nostalgia, trilha sonora pop, sangue jorrando da tela e uma afetação que pretende ser “camp”. Eis a receita para uma série do megaprodutor americano Ryan Murphy, que põe os ingredientes no liquidificador novamente para fazer “Estilhaços”.
Com a renovação da confiança da Disney em seu showrunner de ouro, responsável pelo hit recente “História de Amor: John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette” e por outros mais antigos, como “Glee” e “American Horror Story”, a série chega ao streaming do estúdio nesta semana com mais uma história sobre jovens lindos em apuros.
“Quando você olha para a carreira de quase todo grande autor, eles sempre examinam os mesmos temas”, diz Brad Simpson, produtor executivo que vem trabalhando com Murphy há uma década.
“No caso do Ryan, você percebe que desde muito cedo ele está interessado nas pessoas que estão à margem, em elementos que não são vistos como centrais na nossa cultura. Ele fala de juventude, crime, amor, obsessão, e eu acho que isso reflete também o interesse dos espectadores de hoje.”
Não é só de Ryan Murphy que vem a sanha de pôr gente bonita para correr. O material que serve de base para “Estilhaços” é o livro homônimo de Bret Easton Ellis, mesmo autor de “Psicopata Americano”, que em sua tradução para as telas, em 2000, fez sangue escorrer pelo abdômen trincado de Christian Bale, que empunhava uma serra elétrica para versar sobre o culto ao corpo e ao dinheiro.
Os protagonistas de “Estilhaços” não estão muito distantes daquele Patrick Bateman. Eles integram a elite de Los Angeles no início dos anos 1980, dominam a escola onde estudam e têm pais que terceirizam a criação dos filhos ao limite do cartão de crédito.
Um deles mora sozinho numa bela casa envidraçada desde que os pais decidiram sair de férias eternas pela Europa. Outra é filha de um produtor que está no armário mais um tema repetido na obra de Murphy, que assinou “Hollywood” e devora os colegas da moça não só com os olhos. Um terceiro chega à cidade pilotando um carro de luxo perigosamente pelas ruas.
É da tensão desse triângulo que nasce a trama de “Estilhaços”. O adolescente largado pela família, uma versão ficcionalizada de Easton Ellis, vivido por Igby Rigney, sonha em ser escritor. Ele namora a patricinha de Hayes Warner acreditando que o pai dela, o predador sexual, vai um dia bancar uma adaptação sua para os cinemas.
Mas a monogamia não é seu forte, tampouco a heterossexualidade, e o terceiro personagem papel de Homer Gere, filho de Richard Gere se torna sua mais nova obsessão. Principalmente depois que passa a rondar os rapazes com quem o protagonista trai a namorada. É uma aproximação estranha, que não deixa claro se está carregada de desejo ou de inveja.
Essa relação dúbia entre prazer e perigo definiu outros laços de personagens de Murphy como em “O Assassinato de Gianni Versace: American Crime Story”, “Scream Queens” e “Dahmer: Um Canibal Americano” e retorna agora de maneira ainda mais grotesca.
Isso porque as brigas de ego e os encontros sexuais de “Estilhaços” acontecem enquanto, ao fundo, um assassino em série de métodos pouco convencionais e bastante criativos persegue os jovens de Los Angeles aquela foi uma década fértil para homicidas, lembra o narrador da série.
Ele não apenas mata colegiais, como também invade casas para sequestrar seus pets. A ideia é costurar partes de gatos, cachorros, peixes e passarinhos nos corpos daqueles adolescentes que, ao menos em vida, eram esteticamente perfeitos. Assim, a série promete ser mais uma de Murphy a suscitar debates sobre violência gráfica em cena.
“Bret [o protagonista] tem esse segredo terrível, não tão bem guardado, sobre a sua sexualidade. Ele morre de medo desse serial killer na mesma intensidade em que morre de medo de ser descoberto. E percebe que, no fim, sua riqueza e seu privilégio não o protegem das coisas que ele mais teme”, diz Nina Jacobson, também produtora executiva.
“Nos anos 1980, sexo e morte estavam profundamente interligados. Nós podemos fazer toda uma análise desse livro e dessa série pela lente da Aids. Então é natural que tramas ambientadas nessa época juntem as duas coisas.”
Foi das memórias de um narrador não confiável Bret Easton Ellis que surgiu a ideia para “Estilhaços”. O autor de fato cresceu em Los Angeles naquela década, frequentou uma escola de elite e teve uma juventude marcada por sexo, drogas e ostentação, embora nunca tenha sido perseguido por um assassino em série.
O escritor vem dizendo em entrevistas que a trama pode não seguir os fatos, mas que é emocionalmente verídica, baseada em memórias que traduzem o clima e os sentimentos daquele período, marcado por uma sensação constante de paranoia, obsessão por status e isolamento por ser homossexual.
ESTILHAÇOS
- Onde Disponível no Disney+
- Classificação 18 anos
- Elenco Igby Rigney, Homer Gere e Evan Rachel Wood
- Produção Estados Unidos, 2026
- Criação Ryan Murphy e Bret Easton Ellis