Alerta: a reportagem abaixo trata de temas como suicídio e transtornos mentais. Se você está passando por problemas, veja ao final do texto onde buscar ajuda.
Acostumado às audiências massivas, o diretor de televisão Ricardo Waddington, de 65 anos, volta ao teatro com a intenção de se comunicar com amplas plateias. A peça #malditos16, escrita pelo dramaturgo espanhol Nando López, que estreou nesta quinta-feira, 16, no Teatro Faap, em São Paulo, parte do complexo universo adolescente para atingir a todas as faixas etárias.
O tema central é um tabu, o suicídio, que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), tira anualmente a vida de 700 mil garotos e garotas entre 15 e 29 anos, mas a discussão é urgente e rara na arte. A trama envolve quatro jovens que se conheceram aos 16 anos em uma clínica psiquiátrica depois de tentativas de tirar a própria vida e, na casa dos 20, se reencontram como participantes de um programa assistencial a meninos e meninas impactados por dramas semelhantes.
O quarteto é interpretado por Pedro Waddington, Sara Vidal, Benjamín e Julia Maez, cujos personagens enfrentam problemas relacionados à violência doméstica, abuso sexual, homofobia e gordofobia. A atriz Helena Ranaldi vive a psiquiatra Violeta, e o ator Matheus Sousa é o seu assistente. “É um tema difícil, duro, que eu mesma me pego falando baixinho, mas isso não pode acontecer”, afirma a atriz, que foi casada com Waddington e é mãe de Pedro. “Precisamos falar bem alto porque tratamos de vida e não de morte.”
Waddington salienta que muito mudou no comportamento dos jovens nas últimas décadas, principalmente depois da popularização da internet – e, frequentemente, os pais não se dão conta destes efeitos na rotina dos filhos. A principal diferença é o aumento da solidão. “Na minha adolescência, nos anos de 1970, encontrava os amigos na praia ou nos bares para discutir os livros que lia e as músicas que ouvia”, lembra. “O cotidiano dos adolescentes sempre foi dividido entre a casa, a escola e a rua, só que, agora, a rua foi substituída pelo quarto e o computador.”
O diretor é pai de dois filhos de gerações diferentes. A primeira, Isadora, de seu casamento com a ex-atriz e psicóloga Lídia Brondi, tem 41 anos e nasceu em um tempo em que a internet nem existia. Pedro, de 28, cresceu junto à febre digital e, mesmo que tenha tido uma infância menos solta que a de Isadora, desfrutou de certa liberdade. “Eu sempre fui presente na criação dos dois e acho que consegui antecipar situações delicadas”, declara.
Helena, de 59 anos, concorda com o pai do seu filho e reconhece a importância de uma rede de apoio para os jovens se sentirem seguros diante do sinal de qualquer dificuldade. “Já passei por momentos em que percebi o Pedro frágil emocionalmente e fiz o que pude para acolhê-lo”, afirma. “Essa peça me toca até mais como mãe porque nos mostra que é necessário estar atento a qualquer movimento dos nossos filhos.”
Quem pensa que Waddington, experiente na televisão, só agora testa a versatilidade nos palcos está enganado. Ele começou a carreira no teatro infantil. Dirigiu peças como Um Telefonema para o Japão e Alguns Anos Luz Além, entre 1980 e 1982, e, para as plateias adultas, encenou Descalços no Parque, comédia romântica protagonizada por Lídia Brondi e Thales Pan Chacon (1956-1997) em 1990. Por quatro décadas, foi um dos principais nomes da Rede Globo, chegando a cargos executivos, como o de coordenador de teledramaturgia e diretor dos Estúdios Globo, função ocupada na época do seu desligamento, em 2023. “Foi uma saída tranquila, que eu já vinha organizando há 3 anos, inclusive financeiramente”, garante.
Produções marcantes, como as novelas Laços de Família, A Favorita e Avenida Brasil, a minissérie Presença de Anita, e o programa Amor e Sexo, levaram a sua assinatura. Mas foi a bagagem adquirida nos 10 anos que esteve à frente da novela adolescente Malhação, toda a década de 2000, a que mais contribuiu para o entendimento de #malditos16. Na sua gestão, o programa trouxe polêmicas, como bullying, homossexualidade, HIV e interrupção de gravidez e, segundo ele, nenhuma discussão era proibida. O que mudava era a forma de tratá-la.
“Aprendi a falar com um público gigantesco na TV e preciso ter cuidado ao abordar a saúde mental dos jovens”, reconhece. “Os 50 minutos do capítulo de uma novela não são suficientes para certos conteúdos, como o suicídio, mas o teatro propicia uma experiência estendida que ajuda a pessoa a não ir para a casa com a cabeça cheia de demônios.”
Em meio aos ensaios de #malditos16, Waddington desenvolve jornada dupla no projeto que marca seu retorno à Globo, desta vez contratado por obra. Ele será o diretor de Avenida Brasil 2, continuação do fenômeno do novelista João Emanuel Carneiro exibido em 2012, que retoma a trama de vingança e rivalidade entre a chef de cozinha Nina e a madrasta Carminha (interpretadas por Débora Falabella e Adriana Esteves).
As gravações começam em setembro para estrear em janeiro, e Waddington desvia do assunto para não deixar escapar qualquer spoiler. “O João Emanuel está afiadíssimo e vai ser muito bom”, garante. “Estou voltando à TV porque adoro me relacionar com os atores, comandar um set e isto eu aprendi no teatro.”
Helena, que trabalhou com Waddington em pelo menos dez produções televisivas, revela que conheceu um novo parceiro nos ensaios de #malditos16. “É uma outra forma de enxergar o processo e se colocar diante de nós, atores e atrizes, mais tranquila e focada”, compara.
Sobre trabalhar com Pedro, que estreou nos palcos em O Retorno, peça do norueguês Fredrik Brattberg dirigida por José Roberto Jardim em janeiro deste ano, Waddington dispensa a preocupação em separar os papéis de pai e diretor. “Eu quero justamente ter essa experiência ao lado do meu filho”, garante. “Se buscasse algo diferente, escalaria outro ator.”
#malditos16
– Onde: Teatro Faap. Rua Alagoas, 903 – Higienópolis
– Quando: Quarta e quinta, 20h. De 16/4 a 4/6
– Quanto: R$ 100
Onde buscar ajuda
Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja abaixo onde encontrar ajuda:
Centro de Valorização da Vida (CVV)
Se estiver precisando de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito de apoio emocional que disponibiliza atendimento 24 horas por dia. O contato pode ser feito por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.
Canal Pode Falar
Iniciativa criada pelo Unicef para oferecer escuta para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h.
SUS
Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas para o atendimento de pacientes com transtornos mentais. Há unidades específicas para crianças e adolescentes. Na cidade de São Paulo, são 33 Caps Infantojuventis.
Mapa da Saúde Mental
O site traz mapas com unidades de saúde e iniciativas gratuitas de atendimento psicológico presencial e online. Disponibiliza ainda materiais de orientação sobre transtornos mentais.
Estadão Conteúdo.