NADINE NASCIMENTO
FOLHAPRESS
A decisão que mudaria para sempre o Carnaval de Salvador foi tomada 30 anos atrás, quando Daniela Mercury convenceu sócios e foliões do Bloco Crocodilo a abandonar o circuito tradicional do desfile. Em vez do Campo Grande e da Avenida Sete, então principal trajeto da festa, o trio “desceu” para a Barra, região que recebia apenas apresentações alternativas antes dos dias oficiais e sequer contava com infraestrutura básica, como iluminação.
Considerada arriscada à época, a escolha enfrentou resistência de parte do público, já que a Avenida Sete era símbolo do Carnaval. Para a cantora, porém, o antigo circuito estava saturado: o congestionamento fazia com que ela chegasse a cantar por até oito horas seguidas com o trio praticamente parado. Em 1996, apenas o Crocodilo desfilou na Barra no domingo, na segunda e na terça, o que abriu caminho para uma transformação que consolidou o circuito Barra-Ondina como o principal do Carnaval de Salvador.
“Não tinha infraestrutura, mas avisei a cidade, avisei a prefeitura, pedi licença e desci. E hoje é o circuito mais importante da cidade, que abri há 30 anos e todo mundo migrou para a Barra. Lá em cima, se eu saísse de noite, eu fazia sete horas, oito horas por dia cantando num engarrafamento. Era algo completamente desumano. Impossível”, diz Mercury em entrevista por videochamada.
Desde então, o Bloco Crocodilo se consolidou como um dos principais do Carnaval de Salvador, ao lado do Coruja, de Ivete Sangalo, e do Camaleão, de Bell Marques. À frente do Crocodilo, Daniela Mercury reafirma, a cada desfile, o desejo de colocar a dança e a performance no centro da festa. Seu trio elétrico já abrigou de óperas carnavalescas a peças de teatro musical, além de shows acústicos, performances eletrônicas e encontros com bailarinos, atores, orquestras, DJs e artistas visuais, transformando o percurso em um espetáculo cênico sobre rodas. “Este ano quero celebrar os associados que foram corajosos e foram comigo para o outro circuito. Então vou agradecer a eles e celebrar a saída do Crocodilo”, diz.
Foi também há três décadas que a cantora lançou seu quarto álbum, “Feijão com Arroz”, considerado pela crítica o melhor de sua carreira. O disco reuniu sucessos como “Nobre Vagabundo” e “Rapunzel”, além de “À Primeira Vista”, canção que alcançou o primeiro lugar nas paradas brasileiras.
Conhecida como a Rainha do Axé, a artista completou 60 anos recentemente e soma mais de quatro décadas de trajetória, marcada pela constante reinvenção e pela abertura de caminhos até então inexplorados na música e no Carnaval.
A edição de 6 de junho de 1992 da Folha de S.Paulo trazia na Primeira Página: “O show do meio-dia no vão livre do Masp, ontem, com a cantora Daniela Mercury, voltou a tumultuar o trânsito na av. Paulista. O público, calculado em 9.000 pessoas pela PM, invadiu a avenida e impediu a passagem de ônibus”.
Era a primeira apresentação da baiana em São Paulo. Disposta a se arriscar num espaço voltado a artistas iniciantes, ela bancou do próprio bolso a vinda da banda desde a Bahia. Ao som de canções como “Swing da Cor”, do seu primeiro álbum “O Canto da Cidade”, a multidão pulava e cantava enquanto a cantora se perguntava “como essas pessoas me conhecem?”.
O show durou apenas 40 minutos porque a trepidação colocava em risco a estrutura do Masp. Para além do tumulto no trânsito, aquele episódio marcava a abertura de caminho para a nacionalização do axé music, e posterior internacionalização papel que Mercury reivindica sem modéstia. “Caetano [Veloso], uma vez, disse que eu era um dínamo. Tenho muita capacidade de realização. Fiz um pouco essa mediação cultural aqui para o Sudeste, para o mundo.”
A relação da cantora com São Paulo, iniciada em 1992, ganhou novos contornos a partir de 2016, quando ela passou a encerrar o Carnaval paulistano na Quarta-Feira de Cinzas com o bloco Pipoca da Rainha, que já reuniu mais de um milhão de foliões na rua da Consolação.
“Até hoje me surpreendo com a conexão que consigo criar com tanta gente durante sete horas cantando. As pessoas saem alimentadas. Os nordestinos matam a saudade de casa, e a gente enfeita São Paulo com a humanidade que falta nos prédios. A natureza que não existe na cidade somos nós, na rua, pulando Carnaval”, diz.
A artista se define como romântica por manter o bloco há uma década nas ruas paulistanas sem receber cachê e bancando parte da estrutura do próprio bolso. “A prefeitura vende o patrocínio e repassa uma pontinha para a gente que não cobre os custos nem as obrigações para colocar o trio na rua. Governos ainda veem a arte como gasto, e não como investimento, capaz de gerar renda, turismo e movimento para a cidade”, afirma.
Segundo Malu Verçosa Mercury, mulher e empresária artista, o custo para colocar o Pipoca da Rainha na rua pode chegar a R$ 650 mil, sem contar o cachê da cantora. Ela afirma ainda que o Carnaval de São Paulo não segue ainda o mesmo modelo de negócio da festa de Salvador. Na cidade da Bahia, prefeitura e governo captam patrocínio de empresas privadas e contratam apresentações dos artistas, o que não ocorre em São Paulo.
Procurada pela reportagem para comentar a política de financiamento e apoio a artistas e blocos durante o Carnaval, a prefeitura paulistana disse que o Pipoca da Rainha não se candidatou ao programa de fomento em questão e que em 2026 cerca de 100 blocos foram contemplados para receber até R$ 2,5 milhões.
Segundo a Secretaria Municipal da Cultura e Economia Criativa, o bloco Pipoca da Rainha não se inscreveu no programa, e a viabilização financeira dos desfiles segue sendo responsabilidade dos organizadores, por meio de patrocínios. A gestão ressalta ainda que o patrocinador oficial do Carnaval financia integralmente a infraestrutura dos desfiles em 2026 e que a Prefeitura garante a operação da festa.
O espírito empreendedor da artista também se manifesta por necessidade. O fato de ela não se esquivar de posicionamentos políticos, mesmo sabendo que isso pode afastar patrocinadores, a obriga a gerir pessoalmente a própria carreira e seus projetos.
Em setembro de 2025, foi uma das poucas artistas de Salvador a se manifestar contra a PEC da Blindagem, proposta de emenda à Constituição que buscava restringir a responsabilização criminal de deputados e senadores. O debate provocou mobilizações em todo o país, com grandes shows, incluindo um ato em Copacabana que reuniu Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque. Na capital baiana, Mercury realizou um show com a participação do ator Wagner Moura.
“Há quem construa uma carreira pensando nos benefícios financeiros, e não na sua missão como artista, na sua arte, no seu conteúdo artístico independente. Fazer uma arte independente é muito mais difícil do que fazer entretenimento mais conformado com o sistema em que está inserido, sem questionar nada, atuando apenas como alguém que anima. Há artistas e há