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Meio-século de breguice

Odair José era cultura Classe Z para os intelectuais, mas incomodava muito Governo e Igreja

Por Gustavo Mariani 23/06/2022 12h15

Em 1972 – há “50tão”, portanto -, o Brasil apresentava estabilidade política, por o presidente Emílio Garrastazu Médici ter permitido a direitistas radicais usar da repressão policial-militar contra opositores da Ditadura dos generais-presidentes, o que gerou a maior onda de repressão política da história do país.

Tempo, também, do chamado milagre econômico, com o Brasil apresentando índices de crescimentos que chegavam 13% pela virada do calendário. Época, também, em que a indústria se expandia e as exportações agrícolas geravam milhões de empregos, o que fazia o Medicis dizer que eram conquistas do regime militar. Só que a tal prosperidade era muito mais causa da boa situação do quadro econômico externo, tanto que, quando a economia mundial desacelerou, o milagre brasileiro “desmilagrou”, deixando brutal concentração da renda nos bolsos dos mais ricos. Vieram pela frente grandiosas desigualdades sociais e tremendo aumento da pobreza, o que não permitia a nenhum pobretão sonhar – caso do cidadão Odair José de Araújo.

Vivente na atrasadona Morrinhos, no interior de Goiás, desde 1948, Odair, no entanto, decidiu desafiar os tempos difíceis criados por Medices e foi para o Rio de Janeiro, querendo ser cantor, pois compunha e cantava desde 17 de idade. Passou fome, frio, dormiu na rua e tocou em inferninhos da Praça Mauá, até conhecer o cantor/compositor/produtor de discos Rossini Pinto, que gostou do que ouviu dele e o levou para a gravadora CBS (atual Sony Music).

Naquele mesmo 1972, Odair gravou “Eu vou tirar você desse de lugar”, em homenagem ao cantor baiano Waldick Soriano que, ao fazer um show em um cabaré de zona meretrícia de Belém do Pará, apaixonou-se por uma “moça” e prometeu-lhe tirá-la “daquele lugar”, o que cumpriu, casando-se com ela.

Com o compacto simples de vinil tendo na face A a choradeira de “Eu vou tirar você desse lugar”, que “vendeu horrores”, Odair José saiu do meio da turma castigada pelo modelo econômico do Governo Médicis e até frequentou shows de cantores da linha de frente da Música Popular Brasileira-MPB, como Nana Caymmi. E foi por ali que ele teve grande surpresa. Reconhecido por Caetano Veloso, este disse-lhe que gostaria de cantar, em dueto com ele, “Eu vou tirar você desse lugar”, e o apresentou ao “mestre” Dorival Caymmi, que, também disse-lhe ter gostado muito da canção e afirmado ser ele o compositor que melhorar expressara o sentimento pelas ‘meninas velhas de guerra”.

Beleza! Mas foi em 1973, Odair José compôs o seu maior sucesso (e dilema): letra em que o carinha pedia à parceira pra parar de tomar a pílula, pra terem um filho. Em dois dias no mercado, o disco esgotou-se, as rádios o tocavam insistentemente e os líderes das paradas de sucesso, Roberto Carlos e Agnaldo Timóteo, ficaram para trás.

Música chegada aos ouvidos dos censores da Ditadura, imediatamente, o disco foi proibido, pois o Governo apoiava um programa de controle de natalidade, pelo Nordeste e recebia pressões dos laboratórios multinacionais, que temiam reduzir o envio de lucros para suas matrizes, principalmente, nos Estados Unidos.

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De sua parte, Odair José enfrentava ameaças de lhe trucidarem e acabarem com a sua vida. Com medo de cumprirem o que prometiam, ele fugiu do Brasil e escondeu-se na “Swinging London” da efervecência cultral e dos modernismos dos costumes ingleses. Onde já estava escondidos, também, os tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil, presos e depois banidos pelo Governo da Ditadura.

Quando a coisa esfriou, Odair voltou às terras brazilis e soube que “La Pílula” (título do seu disco para os cucarachas) fizera grande sucesso por toda a América Latina, até ser proibida por pressões dos mesmos laboratórios multinacionais.

Mais um tempinho depois, por meio de um amigo do general Golbery do Couto e Silva, a chamada “Iminência Parda do Governo”, Odair conseguiu ser recebido pelo homem, de quem esperava uma ajudinha para liberar o seu grande sucesso. Levou um chá de cadeira e foi despachado, em menos de 30 segundos, após ouvir: “A sua música está proibida e assim vai continuar”.

Odair José teve outros problemas com a Censura da Ditadura, pois ele era o cantor das empregadas, prostitutas, homossexuais, bissexuais, cornudos, lésbicas e afins, enquanto o Governo era o “grande defensor do moral e dos bons costumes”, bem como a Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana, que execrou a letra em que ele indagava a Jesus Cristo quem seria ele..

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Quando o regime militar dos generais-presidentes transitava pela “abertura lenta e gradual”, lançada pelo ditadoraço Ernesto Geisel, o seu sucessor João Figueiredo mandou avisou que mandaria “prender e arrebentar” quem fosse contra. E, surpreendentemente, liberou “Pare de tomar a pílula”, após seis temporadas de proibição, em 1979 – ainda bem (para Odair José), pois Sidney Magal já estava ali na esquina dizendo para “Sandra Rosa Madalena: “Se te pego com outro te mato/O meu sangue ferve por você”.








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