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Literatura

Uma grande prosa, com bela narrativa

Livro de estreia do brasiliense Dan, “Vale o que Tá Escrito”, é eleito um dos melhores do ano por críticos

Thaty Nardelli

20/12/2023 11h17

Foto: Tiago de Aragão/Divulgação

Thatyane Nardelli, com Folhapress
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A Folha de São Paulo convidou quatro profissionais envolvidos com a cobertura literária do jornal para indicar, cada um, cinco dos melhores lançamentos que leram este ano. A única exigência pedida aos convidados é que selecionassem livros publicados pela primeira vez no Brasil em 2023 — de resto, não havia qualquer restrição. Entre eles, o livro de estreia do brasiliense, pai, escritor, roteirista e professor de escrita criativa e de roteiro para cinema, Dan: “Vale o que Tá Escrito”.

“Eu escrevi exatamente o livro que eu queria e tive a sorte de ter tido editores que gostaram dele assim. Fico feliz de estar entre os 20, mas não surpreso: sei que sou suspeito para falar, mas o livro é massa, mesmo”, revela o autor.

Quem conta esta história é um narrador não confiável. Como Brás Cubas, o burguês inútil que quer nos convencer do quanto sua vida foi importante, ou José Costa, o ghost writer oportunista de Chico Buarque em “Budapeste”.

Quando vê passar pela rua um colega de infância que acreditava estar morto, Danylton é levado a investigar os eventos de vinte anos antes, no Núcleo Bandeirante. A essa narrativa, soma-se a de Boamorte – miliciano cuja trajetória confunde-se com a da construção da nova capital. Na Brasília das casas geminadas, da terra vermelha e do asfalto quente, os vilões dos westerns tomam a forma de oficiais corruptos; os tiroteios aparecem primeiro nos videogames; os cavalos dão lugar ao Chevette; e o bairro vive sob o domínio silencioso do jogo do bicho.

Em seu livro de estreia, Dan se apropria de elementos da cultura pop para construir um romance sobre um dos pilares da identidade brasileira: a violência que rege todas as relações sociais.

Vivendo às custas da esposa Natália, que gastou todas as suas reservas para montar um café em que ele pudesse trabalhar, não faz questão de contribuir com o sucesso do negócio. E justo quando ela resolve deixá-lo, ele decide tomar um rumo na vida fazendo a única coisa para a qual tem talento: escrever.

“Eu sempre achei muito interessante, por exemplo, na história de Brasília, o Núcleo Bandeirante, que se chamava cidade livre porque era livre de impostos, e eu acho que a inspiração veio dessa mistura de ter esse interesse pelo bairro, que eu já morei, comparado com um pouco dos filmes de Faroeste”, comenta Dan.

Um mundo total sem leis

Numa trama metalinguística em que se misturam lembranças, pesquisas, reportagens e e-mails, somos apresentados a Lilico, um homem que todos imaginam ter morrido, mas que Dany jura estar vivo. Acompanhando um emaranhado de relatos em que dados são omitidos, às vezes não sabemos em quais informações acreditar. É aí que o autor mostra a sua cara, usando o título do livro como argumento.

A história que Dany testemunhou nos anos 1990 se passa em um mundo em que as leis não são respeitadas, o dinheiro e o poder falam mais alto e os ecos da ditadura militar ainda ressoam.

Aqui, a única regra cumprida é a do jogo do bicho: “vale o que tá escrito, acertou, levou, e tanto faz quem morreu”. E se vale o que tá escrito, só nos resta acreditar que Lilico não morreu. Mesmo pobre, filho de imigrante, discriminado, conseguiu sobreviver e continuar livre num país em que os culpados já nascem escolhidos.

“Costumo dizer que eu queria copiar um pouco a Elena Ferrante, o Roberto Bolaño, mas com influência dos filmes de Faroeste, principalmente do gênero ‘Faroeste Espaguete’, como as produções de Sérgio Leone. Acho que eu tentei fazer uma cópia deles e desfrutar de um diretor de ação que eu gosto muito”, revela o autor.

Ficha técnica
Vale o que tá escrito
Autor: Dan
Número de páginas: 224
Formato: Brochura
Tamanho: 14 x 21 cm
Preço: R$ 59,90
Editora: DBA

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