Jornal de Brasília

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Folhetim "Outro Lugar na Solidão"

Técnicas e tempos diferentes

Folhetim – Outro lugar na Solidão. Capítulo 16

Por Marcos Linhares, Adriana Kortland e Marcelo Capucci
Especial para o Jornal de Brasília

No dia seguinte, JVC checava os últimos gráficos gerados pelo GPS do veículo de Chiara e usava uma espécie de cabo adaptador para conectar um pendrive à placa de dados retirada do veículo.

Da sala ao lado, Ricardo Xavier olhava pra aquele “garoto” e pensava:

– Essa rapaziada de hoje… Enfim, ele é o delegado e tem de apontar o caminho para um bode velho feito eu.

Um estagiário entrou na sala trazendo o resultado do exame do bafômetro. JVC rasgou o envelope e sentenciou para sua equipe:

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– Pessoal, Chiara Vicenza estava bêbada. Isso nos indica evidências de um acidente causado por alcoolemia ao volante.

Alguns policiais chegaram perto do documento para averiguar os índices.

– Mas os dados do sistema de navegação do SUV mostram que a velocidade foi alterada sem que o acelerômetro tenha registrado uma ação voluntária da condutora pra isso.

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Ricardo Xavier foi ao encontro do chefe com um envelope plástico, dizendo:

– Doutor, os caras da perícia ainda não me falaram nada, mas encontrei essa lâmina cromada grudada no carro da Chiara.

Os dois se olharam e indagaram em uníssono:

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– O carro dela pode ter sido empurrado por outro?

Xavier sentou-se, acendeu um cigarro, cruzou as pernas e pegou seu bloco de rascunhos. Não acreditava na hipótese de acidente. A partir de agora abria-se uma caçada ao desconhecido.

O policial olhou para a equipe, por sobre os óculos de grau, dizendo:

– Acho que devemos começar por qualquer esportivo, com parachoques de ferro cromado, registrados nesta região.

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O problema é que o carro, que tinha documentos frios, estava escondido na garagem suburbana de Jamil e ele seguiria fielmente, como sempre, as ordens demandadas por Dona Layla, direto da cena do acidente:

– A polícia está desconfiada. Desapareça com essa lata velha!

Por quase três anos, Jamil fez apenas a manutenção trivial do Opala SS: checagem da bateria, nível do óleo, calibragem de pneus. Eventualmente, ele ligava o motor para ouvir o ronco do 6 cilindros e não tirava o carro da garagem para quase nada.

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Enquanto fazia esse trabalho, essa terapia, costumava ouvir as notícias direto de um Motoradio AM/FM, original de fábrica. Em uma dessas audições, ouviu falar do coronavírus pela primeira vez e deu de ombros quando o repórter disse que era uma doença capaz de se espalhar pelo mundo inteiro:

– Direto da China? Fala sério. Nunca chegará aqui! Resmungou e continuou sem imaginar o que aconteceria com o mundo nos próximos meses.

Com o passar do tempo, adquiriu a sensação de segurança que precisava para não se arrepender ao sair com o SS: lavava “a máquina”, apelido carinhoso que ele mesmo dera a seu companheiro, deixava a noite cair e seguia toda quarta-feira para o Felina’s Bar, a boate da cidade vizinha. No caminho, ele vivia um mix de ansiedade, desejo e medo. Mas, sempre acreditava valer a pena. No empreendimento, tinha vaga privativa em uma garagem camuflada e a certeza da impunidade, o cacoete de que jamais seria pego. Era chegar, tomar um trago e aguardar o melhor da noite: Crystal.

Como todo prostíbulo de respeito, era frequentado por cidadãos comuns, políticos, traficantes e policiais. A trabalho ou não, essa turma sempre dava o ar da graça.

Ricardo Xavier, de vez em quando ia ao Felina’s para checar alguma fonte, alguma informação. Ele até encontrava o Jamil em algumas quartas-feiras e nem imaginava que se tratava justamente do que ele procurava.

Xavier era um cana à moda antiga, daqueles que montava campana, que fazia anotações em um bloco de papel, que tinha uma pasta com centenas de cartões de visita de delegados, advogados, agentes e até de criminosos de colarinho branco. Ele não largava um canivete suíço para nada e sempre estava ligado nas frequências da polícia em um velho rádio amador. Era conhecido por ser observador, uma verdadeira raposa nas investigações. Não tinha muito tempo nem paciência para internet, redes sociais, tecnologias ou exames demorados. Ele achava que toda essa parafernalha eletrônica às vezes atrasava o trabalho.

João Victor Cravin, vulgo JVC, só acreditava em trabalho policial comm inteligência e modernidade. Promovia reuniões eletrônicas desde o tempo da faculdade. Achava desperdício sair de um lugar pra ir a outro encontrar pessoas pois, para ele o mundo já estava diferente, antes da pandemia de covid-19. Então, o jovem “hightech” trazia todo mundo do departamento, que não tinha recursos financeiros nem tecnológicos, para uma espécie de CSI, mas sempre dentro de sua realidade.

Numa madrugada, o delegado recebeu um vídeo de Xavier, que queria ser mais íntimo e ao mesmo tempo mostrar duas figuras salutares. JVC assistiu à apresentação de uma dançarina misteriosa. A qualidade do material era péssima. Chamou-lhe a atenção o fato da mulher estar seminua e mascarada. O vídeo mostrava mais que curvas. A própria legenda anotada por Xavier pedia atenção para um cara de chapéu, naquele ambiente escuro e fechado, na primeira fila. Bem estranho… Com a saída da stripper de cena o “cowboy”, embriagado, se levantou e invadiu a coxia.
JVC não se abalou. Guardou a informação e foi dormir.

CONTINUA NA QUINTA-FEIRA






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