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Folhetim "Outro Lugar na Solidão"

Folhetim – Outro lugar na Solidão. Capítulo 23 – De volta ao jogo

Folhetim – Outro lugar na Solidão

Folhetim – Outro lugar na Solidão Folhetim – Outro lugar na Solidão

Por Marcos Linhares, Adriana Kortland e Marcelo Capucci
Especial para o Jornal de Brasília

Suzana estaciona o carro. Avista a entrada do hospital. No espelho retrovisor interno, dá uma última conferida na maquiagem e no cabelo. A noite anterior como Crystal foi muito difícil. Ela tinha que continuar a deixar seu alter-ego distante do trabalho, apesar de ser invadida por uma falta de norte com a perda de seu amor platônico, seu Giaco amado.

Já no corredor, avista Téo, que lhe pareceu mais bonito do que de costume.

– Pena ele ser tão novo, fala em voz baixa, por ato falho…

– Oi, Suzana, tudo bem? Você já deve estar sabendo que o tal hospital de campanha de Tamarindos não vai ser construído… Por isso, vou dar uma passada lá na comunidade. Fiz um pequeno itinerário para oferecer ajuda aos mais fragilizados e serei recebido por amigos que são voluntários numa instituição similar ao “Médicos Sem Fronteiras”, diz Téo, que, sem esconder o entusiasmo, continua:

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– Você seria a melhor companhia… É séria (até demais para o meu gosto), talentosa, sei que também gosta de ajudar a quem precisa e, claro, bela e cheirosa. Que combinação fatal, hein?

Suzana olha para ele, mais uma vez relembra o que se sujeita a fazer como Crystal, e pensa como o julgamento dele poderia mudar negativamente se descobrisse que ela era uma “stripper”. Respira fundo e tenta afastar esses pensamentos ruins.

– Sabe, Téo, até que me faria bem sair daqui um pouco, respirar outros ares. Topo! Você é um jovem surpreendente. Essa sua energia boa contagia quem está ao redor… Suzana fala, surpresa com sua própria resposta.

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Já quase chegando em Tamarindos, Téo fala que começarão o programa na casa de Oscar, que fez a famosa “Live” transmitindo o funeral do irmão Sancho.

– Oi, Oscar! Pelo telefone você me disse que tem tido muitas dores musculares depois da covid. Li um pouco sobre o tema e acho que posso fazer algo a respeito.

– Téo, tenho uma prima que é fisioterapeuta e um amigo que teve covid. Eu acompanhei o tratamento. Posso ajudar o Oscar…

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– Oscar, essa é Suzana, profissional de saúde lá de nosso hospital. Suzana, esse é o famoso Oscar, disse Téo, cada vez mais impressionado com o magnetismo de Suzana.

– Oscar, quem fica com sequelas da covid, normalmente precisa recuperar a aptidão física, melhorar da dispneia, ou seja, da falta de ar, restabelecer a massa muscular, incluindo músculos respiratórios e tronco e, ainda, ajuste psicológico. Começarei a vir aqui com frequência e tentarei trazer minha prima. Vou te ensinar alguns exercícios aeróbicos, te orientar num treinamento de força/resistência, de equilíbrio e do treinamento do padrão respiratório, que envolve ajuste do ritmo respiratório, treinamento da atividade torácica, mobilização da participação do grupo muscular respiratório e treinamento do escarro. Claro, que minha prima vai me ajudar a conduzir isso com maestria. Tudo bem?

Oscar aceitou com lágrimas nos olhos. Balançou a cabeça e foi mais que suficiente. Nunca imaginou receber tanto num momento em que tinha tão pouco. Perdeu o irmão, mas com a transmissão maluca que fez, ganhou uma atenção impressionante. Oscar recebeu comida, tratamento médico, medicamentos, gente que se aproximou e que ofereceu ajuda, acolhimento, solidariedade. Não se sentiu mais só. Havia uma magia estranha por trás da dor. Que é capaz de separar, mas também de apresentar novas peças ao imenso quebra-cabeças da vida.

A cena comoveu os três. Um silêncio barulhento invadiu a sala, como parte de uma engrenagem na qual só o amor incondicional ao salvar a um, salva assim a todos. O olhar de admiração pela força do outro fez aquele pequeno barraco transcender seus limites físicos e parecer um campo de lavanda colorido e perfumado.

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De volta ao carro, o encanto de Téo por Suzana e vice-versa tornou-se impossível de esconder.

– Sabe Téo, você é um jovem corajoso. Eu, um dia, já fui assim. Parece que com o tempo, o cotidiano anestesia o nosso olhar. Mantemos a missão de salvar vidas, mas os procedimentos, as longas horas, as pilhas de formulários, vão nos cansando.

– Suzana, você suspeitava de esquemas no hospital?

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– Eu sabia. Todos, no fundo, sabiam que um monte de coisas erradas estavam sendo feitas também neste período de pandemia… Contudo, vamos nos sentindo impotentes. Vemos tantos poderosos ganharem fortunas de maneira ilícita e se livrarem das penas devidas por meio de bons advogados, usando as brechas recursais, as amizades, a omissão de quem poderia obstruir esses caminhos.

Confesso que acabei virando uma dessas pessoas omissas.

– E agora, pretende continuar assim? Quem trabalha com saúde sabe que a corrupção subtrai seringas, aparelhos médicos, tudo que, fatalmente, vai oportunizar a perda de vidas. É sempre tempo de lavar o rosto e enfrentar o calor. Depende de cada um de nós não se curvar. Já tentaram e continuarão tentando que eu me cale, que me canse, que eu desista. Eu não me curvarei, revela Téo, olhando nos olhos brilhantes de Suzana, refletidos nos dele.

– Téo, acabo de receber uma injeção de propósito. O mesmo que eu tinha quando jovem…

– Você ainda é muito jovem! Diz Téo, calando as palavras de Suzana com um beijo. Nenhuma palavra era mais necessária…

CONTINUA NA PRÓXIMA TERÇA-FEIRA






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