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Folhetim "Outro Lugar na Solidão"

Folhetim – Outro lugar na Solidão. Capítulo 21 – Dor, luto e dossiê…

Folhetim – Outro lugar na Solidão. Capítulo 21

Folhetim

Por Marcos Linhares, Adriana Kortland e Marcelo Capucci
Especial para o Jornal de Brasília

Dr. Téo Silva desligou o telefone e ligou novamente:

– Giaco, me desculpe, sei que você acabou de sepultar seu pai, mas preciso te falar sobre os eventos de Brasília.

– Eu ia realmente te perguntar, mas a situação não ajudou muito, né?!

– Pois é… podemos fazer uma videoconferência agora? O Afonso Chess também quer participar.

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– Sim, claro… você me manda o link?

– Agora!

Téo pediu para que Chess compartilhasse sua tela para mostrar os emails que conseguiu rastrear junto às ONGs e suas fontes na capital federal. Na sequência, o secretário de saúde disse:

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– Infelizmente, os desvios de verbas foram bem além dos EPIs que não chegaram no hospital. Detectamos uma situação muito grave sobre o contrato feito entre a prefeitura e uma organização social que construiria o Hospital de Campanha de Tamarindos.

Giaco interrompeu:

– Como assim, a construção de um hospital em Tamarindos. Estamos superlotados e nem sabíamos dessa nova estrutura?

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– Ainda é bem pior, Dr. Giaco, interrompeu Chess.

– Seu pai assinou um contrato com uma organização que estava no nome do Pablo Fukushima e de um aliado político de Brasília, um laranja.

Giaco emendou:

– Ou seja, a instituição era deles mesmos.

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Téo interveio:

– Sim. O prefeito e o diretor do hospital assinaram, receberam, não construíram o hospital e provavelmente mandaram o dinheiro para um paraíso fiscal. E, agora, com amorte dele, não se tem nem verba e nem atendimento para a população. Nosso único elo com tudo isso seria Pablo Fukushima, mas ninguém mais o viu depois da morte do prefeito. Nem no hospital, nem nas redes sociais.

Chess concluiu:

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– O pior é que agora o município ficou em situação delicada porque não tem prefeito, não tem diretor no hospital. Hoje não se sabe o caminho dos recursos ou como atender à população. Uma tragédia.

Giaco pediu licença aos amigos. Envergonhado, disse que pessoalmente levaria aquelas denuncias ao delegado JVC. Agora era uma questão de honra e respeito com o exercício de sua medicina. Saiu do chat.

O interfone do quarto tocou.

– Senhora Nonata, está aqui na recepção o Dr. Giacomo Brecchia a aguardá-la.

– Pode deixá-lo subir por favor, respondeu com voz sorridente.

– É o quarto 801, senhor. Pode ficar à vontade nos elevadores da esquerda, disse a recepcionista com voz abafada pela máscara e pelo “face shield”.

Nonata abriu a porta e nenhuma palavra foi emitida. Um longo abraço aconteceu. Tanta ternura entre lágrimas, choro, sorrisos.

– Perdi meu pai. Apesar de todos os pesares, perdi meu chão, meu herói. Brigamos muito. Mas foi ele quem me levantou quando caí no primeiro tombo de bicicleta. Ele quem me incentivava nos jogos de futebol na escola, mesmo quando todos sabiam que eu era o maior perna de pau. Brigamos muito e ainda assim ele estava na primeira fila na minha formatura em Londres. Perdi meu pai.

– Você pode chorar e se lamentar o quanto quiser, meu amor. Não consigo mensurar e nem imaginar o tamanho da sua dor.

Giaco levantou os olhos, segurou as mãos de Nonata e disse:

– Já me sinto bem melhor só por ouvir um “meu amor” vindo de você.

Nonata ficou com as bochechas vermelhas e não escondeu o sorriso. Porém, Giaco mudou o tom de voz, nitidamente. Pediu para sentar-se, dizendo:

– Tem algo sobre o meu pai que tem me angustiado mais que o próprio luto e aquele sepultamento totalmente anônimo.

– Como assim? Perguntou, Nonata, perplexa…

– O Téo Silva e o Afonso Chess, nosso secretário de saúde, foram à Brasília com meu pai, no tal encontro de gestores, prefeitos, sei lá… E acabaram descobrindo, por meio de fontes no Congresso Nacional, que meu pai levantou muita verba para construção de um hospital de campanha aqui no município, além de outros recursos, sem abertura de licitações. Tudo justificado pela pandemia e pela instauração de calamidade pública expedida por ele. Além disso, ainda me revelaram o envolvimento do meu velho com garotas de programa.

Nonata ficou boquiaberta mas não quis criticar o pai que Giaco acabara de enterrar. Porém, o médico se levantou e despediu-se dizendo que voltaria para o jantar e para a tentativa de uma noite mais agradável.

Nonata, doce, respondeu com um lindo sorriso emanado por seu olhar:

– Apenas sua presença, mesmo que de máscara, já é suficiente o bastante pra mim.

Ele desceu do oitavo andar pelas escadas e alcançou o estacionamento ligando para Dona Layla:

– Bom dia, mamãe. A senhora está em casa?

– Sim, meu filhinho. Estou aqui soterrada pela tristeza e pelo luto.

Giaco, que já previra a condição de carpideira em grande estilo, seguiu ao encontro da matriarca.

A guarita da portaria se abriu e Dona Layla já esperava pelo filho no jardim. Ela usava vestes pretas, óculos escuros e um véu que cobria-lhe o cenho.

O filho abraçou carinhosamente a mãe e antes que ela voltasse a chorar, ele disse:

– Temos assuntos importantes a tratar… preciso que a senhora se restabeleça e me ajude a entender certas atitudes de meu pai. É bem sério!

Dona Layla conhecia os segredos do velho prefeito e tratou de afundar-se em sua personagem. Ela sabia que seu filho não arredaria o pé até que a fiel escudeira do mandatário da cidade lhe dissesse como funcionava todo o esquema.

CONTINUA NA PRÓXIMA TERÇA-FEIRA






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