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Folhetim "Outro Lugar na Solidão"

Fé cega, vírus cortante

Folhetim – Outro lugar na Solidão. Capítulo 11

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Por Marcos Linhares, Adriana Kortland e Marcelo Capucci
Especial para o Jornal de Brasília

– O que foi aquilo que você postou no face, Suzana? Já respondi, viu?! Depois, não reclame!

– Bom dia, tio. Tudo bem? Tem um tempão que a gente não se vê, né?! Não sei do que o senhor está falando, mas o plantão foi um dos piores da minha vida, e eu passei só para dar um último alô. Vim trazer máscaras. Se vocês precisarem sair durante o confinamento, fazer supermercado essas coisas, eu me disponho a…

– Como, não sabe? Como, não sabe? Você também embarcou na loucura desse pessoal que quer quebrar nossa economia??? É uma fraude, essa histeria coletiva. Foi tudo armação dos países ricos para destruir os pobres, comprar ações do mundo todo por preço de banana e saquear a indústria nacional. Aí, vem você com essa conversa, só pra puxar o saco daquele doutorzinho metido. Francamente… E ainda tem a coragem de vir até aqui pra me xingar de velho!!!

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– Tio, pra começar: pare de acreditar em cada fake news que o senhor lê! Pelo menos se dê o trabalho de conferir a fonte da informação. Hoje em dia tem de tudo! E depois, o coronavírus não dá a mínima para a nossa opinião sobre ele. Ele é um vírus, pode contagiar qualquer pessoa, não só as de terceira idade ou imunodeprimidos, nada disso. A gente já conversou tantas vezes, fé e ciência podem, sim, conviver em paz. Só que tem que baixar a guarda, dialogar. Olha o que a Fiocruz disse ontem mesmo, foi isso que eu postei lá no meu…

– Eu não quero saber de Fiocruz coisa nenhuma. Em nosso grupo, a gente já aprendeu como é que se protege!

– Ahhh… tá… olha que outro dia passei por lá e vi seus amigos queimando máscaras, bem do lado de fora. Tinha um monte de gente.

– Pois não olhou direito. Eu estava lá. E a Marta também!

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– Tio, com todo o respeito, eu estou um caco. Os plantões estão cada vez mais duros. Tem gente ocupando os corredores, entendeu? Corredores! O hospital já estava lotado antes! Eu vim trazer equipamentos de proteção. A quarentena está começando. A gente pode se falar pelo telefone, mas eu vou respeitar o isolamento. O hospital já está cheio de doentes de covid-19, mas a mídia não divulga. Eu tô lá dentro, vendo tudo. A gente não tem respiradores nem pra…

– Eu não vou respeitar complô nenhum, não vou!!! A Marta quase começou com essa frescura, que nem você. Mandei ela parar. Eu te proíbo de conversar sobre isso com a minha mulher, tá certo?

– Tio, ela já teve câncer e é, sim, do grupo de altíssimo risco. O senhor tem o dever…

– Não venha você me dizer o que eu devo ou não fazer com a minha mulher. Sem fé, sem o pessoal, ela não teria sobrevivido. Aliás, eu também não, quando perdi tudo. A família, por acaso, me deu a mão??? Se não fosse pelos amigos da igreja, eu já tava era morto! É claro, você não acredita em nada, mas a gente, sim. Quer saber? Pode ir embora, agora. E leva essas porcarias aí, porque se não eu vou queimar tudo de novo!

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– Meu Deus…

– É isso mesmo: Meu Deus!!! Agora, sai!!!

– Eu não aguento mais este mundo. Suzana murmurou para si mesma enquanto dava a partida no Grand Vitara, cor prata, recém comprado. Dirigiu alguns quarteirões até chegar em sua casa. Parou em frente à garagem dupla, abriu um dos portões com o controle e entrou. Depois de fechar o portão, ainda na garagem, ela destrancou o pesado cadeado do armário de ferro que ocupava um dos cantos, retirou uma maleta e a colocou em cima do capô do carro ao lado, um Corsa 2005, marrom e sujo. Pegou uma chavezinha escondida atrás do armário, abriu a maleta e conferiu seu conteúdo. Depois, guardou tudo de novo em seus lugares e foi para o jardim, nos fundos da casa.

Sentindo os nervos à flor da pele, Suzana começou a andar em círculos, fumando um cigarro atrás do outro. Ela remoía a discussão com o tio e revivia a completa loucura do plantão. Isso a fez se sentir em um hospital de campanha na guerra. Havia mais naquele turbilhão. Tentando acalmar seu coração, ela se sentou ao pé da paineira rosa, a árvore frondosa que seus pais haviam plantado em agradecimento à tão esperada descendência, depois de tantas tentativas para que a mãe engravidasse. Depois, quando Suzana herdou a casa, passou a cuidar em dobro da árvore que era como um elo vivo entre ela e seus pais falecidos.

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Sentada ao pé da paineira, como se quisesse um pouco de calor humano, ela se deixou flutuar para o passado recente, quando, há exatamente um mês, no mesmo dia e hora de agora, ela teria feito outra coisa. Sem parar de fumar, ela revisitou lembranças só dela, uma espécie de válvula de escape para tudo o que tinha de aguentar da família, do trabalho e, principalmente, de Giaco e sua gélida indiferença a tudo o que ela lhe oferecia.

Lembranças…

Seu corpo se aqueceu sozinho. Um estado de excitação se apoderou dela. Agora, a enfermeira sangue de barata, a que enfrentava firme e fria as cenas mais horripilantes da emergência do hospital, dava lugar a uma outra figura, sinuosa.

Suzana gosta e se identifica com esse seu outro lado, uma espécie de avesso vivo, pulsante.




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