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Literatura

Bora Chung dá aos seus personagens o pior fim possível em ‘Coelho Maldito’

Os excrementos de uma mulher formam uma cabeça que passa a assombrá-la, perseguindo-a em vasos sanitários

Redação Jornal de Brasília

15/03/2024 11h04

Foto: Reprodução

SUSANA TERAO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)  

Os excrementos de uma mulher formam uma cabeça que passa a assombrá-la, perseguindo-a em vasos sanitários. A figura monstruosa cresce e, quando se torna uma versão jovem da personagem, condena-a a tomar seu lugar dentro dos encanamentos.

Um abajur em formato de coelho leva toda uma família à ruína. Quando o neto de um empresário toca na luminária, passa a ter alucinações com o animal, que rói seu cérebro.

Um prédio abandonado, vendido a preço de banana, atormenta seus inquilinos, um dos quais acaba esquartejado em uma panela de sopa.

As histórias estão em “Coelho Maldito”, primeira obra da sul-coreana Bora Chung publicada no Brasil. Em dez contos perturbadores, a coletânea expõe até que nível a crueldade pode chegar e o caráter destrutivo da ganância humana.

“Queria que todas as coisas horríveis e injustas do mundo não acontecessem e que pessoas inocentes não tivessem que sofrer. Não posso mudar a realidade mas, pelo menos nas minhas histórias, posso matar as pessoas más e me divertir durante o processo”, diz a escritora.

Chung ainda usa essas narrativas para questionar a estabilidade de instituições como a família e o casamento, enfatizando como elas privilegiam os homens em detrimento das mulheres.

Um exemplo é “Menorreia”, que acompanha uma jovem que começa a fazer uso de anticoncepcionais para regular o fluxo menstrual. Depois de alguns meses tomando pílula, ela recebe o diagnóstico de que está grávida mesmo sem ter tido relações sexuais e precisa arranjar um marido que aceite ser pai da suposta criança.

O enredo foi inspirado em uma experiência da própria Chung. Aos 28 anos, ela começou a ter sangramentos anormais por causa de um cisto no ovário. Quando marcou uma consulta com um ginecologista, sua mãe quis impedi-la de ir por ela não ter um marido.

“Eu era legalmente, fisicamente e mentalmente uma adulta, mas meus ovários claramente pertenciam a um cara que eu nunca nem conheci”, afirma. “Partiu meu coração saber que muitas leitoras de diferentes países se identificaram com a história e me disseram que tinham tido experiências semelhantes.”

Publicado na Coreia do Sul em 2017, “Coelho Maldito” foi lançado nos Estados Unidos em 2022 e foi finalista do International Booker Prize naquele mesmo ano. A autora diz que a coletânea traz trabalhos que escreveu em diferentes fases da vida, entre 1998 e 2016.

Os contos mesclam gêneros literários como terror, contos de fadas, fábulas e ficção científica, mas ela afirma que o folclore é o seu favorito. “Cresci ouvindo mitologia coreana de 1.500 a 2.000 anos atrás. Essas histórias se passam em regiões que conheço da Coreia, e seus personagens são coreanos, mas que naquela época aparentemente viviam com

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