Amigas, eu estava largada no sofá de casa, aquela cena íntima e nada glamourosa, algodão numa mão, acetona na outra, arrancando o esmalte velho porque, né, Uruguai me espera ainda essa semana. Quando o telefone toca com DDD de Los Angeles. Pensei, pronto, é a Antônia Fontenelle com alguma bomba. Que nada. Era um amigo meu, voz de quem acabou de ver o mercado tremer, me solta assim, sem anestesia. Netflix passou por cima da Paramount e deu um chega pra lá histórico.
Eu fiquei parada, unha pela metade, boca aberta, cérebro tentando processar. Jurava que a Paramount ia engolir a Warner, prato feito, sobremesa inclusa. Mas não rolou. A Warner fechou a porta, puxou a cadeira e sentou com a Netflix. Gente, eu estou passada. Isso não é fofoca pequena. Isso é bastidor premium, daqueles que fazem Hollywood engolir seco.

Amores, Warner Bros. Discovery rejeitou de forma unânime a nova proposta de aquisição apresentada pela Paramount Skydance e decidiu seguir firme com o acordo já fechado com a Netflix. O recado veio em carta aos acionistas. Direto, seco e sem maquiagem. A oferta rival foi classificada como negócio de risco elevado.
Traduzindo do financês para o português claro. A Paramount queria comprar usando dívida em volume indigesto. Um leveraged buyout tão musculoso que deixaria a empresa combinada com cerca de US$ 87 bilhões em dívidas. Isso não é ousadia. É pedir para tropeçar de salto alto.
A Warner avaliou que a proposta de US$ 108,4 bilhões parecia grande no papel, mas pequena na segurança. A estrutura exigia financiamento pesado, elevava o risco de execução e ainda colocava em xeque a estabilidade financeira do grupo. E conselho de empresa grande não brinca de roleta russa.
Do outro lado da mesa, a Netflix apareceu como o adulto da sala. Oferta avaliada em US$ 82,7 bilhões, com pagamento em dinheiro e ações, estrutura clara, previsível e sem sustos no meio do caminho. Soma isso a um valor de mercado perto de US$ 400 bilhões e classificação de crédito de grau de investimento. Não é amor. É matemática.
Teve mais. Romper o acordo com a Netflix custaria caro. Multa de US$ 2,8 bilhões, mais US$ 1,5 bilhão em taxas a credores e cerca de US$ 350 milhões em custos adicionais. Impacto total estimado em US$ 4,7 bilhões. Queimar dinheiro assim não é estratégia. É vaidade corporativa.

A Warner também jogou luz num detalhe que ninguém ignora em Hollywood. A Paramount já carrega classificação de crédito especulativa e valor de mercado em torno de US$ 14 bilhões. Mesmo com os US$ 40 bilhões prometidos em capital próprio por Larry Ellison, o conselho avaliou que o risco continuava alto e o prêmio aos acionistas, insuficiente.
No meio desse ringue estão ativos que não aceitam amadorismo. Harry Potter, Game of Thrones, Friends, o universo DC, além de clássicos que sustentam décadas de receita. Esse catálogo não pode ficar refém de uma engenharia financeira frágil.