Eu estava saindo de casa, pronta para dar uma escapada até Cascais, comer alguma coisa e depois chegar perto da praia, quando recebo essa fofoca literária. E preciso corrigir uma coisa imediatamente: Walcyr Carrasco não escreveu simplesmente um novo romance. O homem foi terminar um livro que Jane Austen deixou inacabado quando morreu, em 1817. Gente. Minha ida a Cascais esperou cinco minutos.
Mais de dois séculos depois, Sanditon ganha uma continuação assinada pelo autor brasileiro. Austen escreveu os primeiros capítulos da história, mas morreu aos 41 anos antes de concluí-la. Carrasco parte desse material original e conduz os personagens até um desfecho. É uma responsabilidade literária daquelas: entrar numa casa construída por uma das escritoras mais importantes da língua inglesa sem derrubar a parede da sala.

A trama acompanha Charlotte Heywood, jovem que chega a uma cidade litorânea inglesa em ascensão e encontra paixões, interesses econômicos e tensões sociais. A proposta da edição é preservar elementos associados à escrita de Austen, como ironia, observação de costumes e relações humanas, enquanto a continuação avança a partir da imaginação de Carrasco.
E existe uma coincidência deliciosa aqui. Walcyr está atualmente em evidência também na televisão com Quem Ama Cuida. Enquanto escreve para o horário nobre, lança uma obra em parceria literária impossível no sentido mais literal da palavra: uma autora inglesa morta há mais de 200 anos e um novelista brasileiro contemporâneo dividindo a capa do mesmo romance.
A edição brasileira de Sanditon sai pela Principis, selo do Grupo Ciranda Cultural, com 192 páginas e preço indicado de R$ 39,90. A publicação mantém Jane Austen e Walcyr Carrasco creditados como autores.

Agora sim posso seguir para Cascais. Mas ainda estou passada com a audácia literária. Walcyr Carrasco já entrou em novela, teatro e livro. Desta vez, entrou numa história de Jane Austen que estava esperando um final desde 1817. Isso, meu amor, é pegar uma obra atrasada há dois séculos e finalmente entregar o último capítulo.