Wagner Moura reconheceu que errou ao usar a expressão “fascisminho de esquerda” durante entrevista ao programa “Conversa com Bial”, gravado em Atenas. A fala repercutiu mal entre setores progressistas e passou a ser usada por bolsonaristas nas redes sociais.
Eu ainda estava na cozinha do Cosme Velho, com a xícara enfim na mão e o dia já mais acordado do que eu, quando vi Wagner Moura tentando apagar o incêndio que ele mesmo acendeu. E olha que não foi incêndio pequeno: bastou juntar “fascismo” e “esquerda” na mesma frase para a internet inteira largar o pão na chapa e abrir tribunal.

Em retratação enviada à Folha, o ator afirmou que apoia todos os movimentos identitários, mas rejeita a cultura do cancelamento. “Eu apoio todos os movimentos identitários. Todos. Mas não a cultura do cancelamento. Acho covarde, venha da direita ou da esquerda”, disse.
Wagner reconheceu que o termo escolhido foi inadequado. “Errei ao chamar isso de ‘fascisminho de esquerda’. Não é um termo apropriado e é insensível ao fato de que são historicamente as minorias que sofrem a violência que caracteriza o fascismo”, afirmou.
A fala original ocorreu quando o ator comentava críticas que recebe por seu ativismo político e social. Wagner costuma ser cobrado por morar fora do Brasil, por se posicionar contra a extrema direita e por defender causas de grupos aos quais não pertence diretamente. No meio dessa discussão sobre patrulha ideológica e cancelamento, saiu a expressão que virou problema.
E eu entendo o tamanho da confusão. Wagner Moura é um dos artistas brasileiros mais identificados com posições progressistas. Então, quando ele usa uma frase dessas, não cai no vazio. Cai no colo de quem já estava esperando uma brecha para dizer: “tá vendo?”. A direita pegou o termo, embalou com laço e saiu distribuindo como se fosse confissão ideológica.
Atualmente, o ator está em turnê pela Europa com Um Julgamento: Depois do Inimigo do Povo, espetáculo dirigido por Christiane Jatahy e inspirado na obra de Henrik Ibsen. A peça fala justamente de perseguição, julgamento público e pressão coletiva, colocando o público no papel de júri. Ou seja, a vida resolveu fazer divulgação temática sem combinar com assessoria.

Eu apoiei a xícara na bancada e pensei que esse é o tipo de escorregão que mostra como artista politizado anda em campo minado. Se não fala, é omisso. Se fala demais, vira alvo. Se escolhe mal uma palavra, entrega munição para quem sempre quis atirar.
Wagner tentou recolocar a fala no lugar certo: criticar cancelamento não significa comparar minorias ao fascismo. A retratação veio rápida, direta e com reconhecimento do erro. Agora, se a internet vai aceitar o pedido de correção ou continuar usando o “fascisminho” como arma de guerra política, aí já é outra história. Porque, meus amores, palavra dita até pode ganhar retratação. Print, infelizmente, não conhece arrependimento.