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Kátia Flávia
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Vosoritide no SUS e decisão que pode mudar o futuro de crianças com nanismo no Brasil: “é sobre independência e futuro”, afirma Dr. Paulo Zattar

Após consulta pública mobilizar mais de 14 mil contribuições, debate sobre inclusão do tratamento no sistema público de saúde envolve ciência, custo e o direito de acesso de famílias

Kátia Flávia

10/04/2026 18h00

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Dr. Paulo Zattar destaca impacto da possível incorporação do vosoritide no SUS para crianças com acondroplasia.

O Brasil está diante de uma decisão que pode mudar para sempre o tratamento de crianças com acondroplasia, doença óssea popularmente conhecida como nanismo. A possível incorporação do medicamento vosoritide ao SUS (Sistema Único de Saúde) mobilizou 14.266 contribuições em consulta pública, um número incomum para doenças raras; e que revela que o tema passou a ocupar o centro de um debate social mais amplo.

Para o médico geneticista Dr. Paulo Victor Zattar Ribeiro, que participou de uma das maiores análises globais sobre o tratamento, o engajamento reflete a urgência de famílias que buscam mais do que o manejo de complicações: buscam autonomia para seus filhos. “Esse nível de mobilização mostra que a discussão sobre a acondroplasia deixou de ser um tema restrito aos especialistas e passou a ser uma demanda concreta da sociedade. Quando milhares de contribuições surgem em torno de uma doença rara, isso revela que há famílias mobilizadas, necessidade assistencial não atendida e percepção real de urgência”, afirma.

A decisão final ainda não foi divulgada, mas o que está em jogo vai além da aprovação de um novo medicamento. Mas pode ser considerada um divisor de águas no tratamento da condição.
A acondroplasia é a forma mais comum de nanismo e tem origem genética. Durante décadas, o cuidado foi concentrado no acompanhamento clínico e no tratamento das complicações ao longo da vida. Não havia uma terapia capaz de agir diretamente na causa do problema. É justamente esse o diferencial do vosoritide.

“Na prática, muda o objetivo do tratamento. Antes, o foco era reconhecer e tratar apneia, compressões, alterações ortopédicas, dor, limitações funcionais e outras complicações. Com a chegada do vosoritide, surge a possibilidade de intervir no mecanismo que reduz o crescimento ósseo na acondroplasia”, explica o médico.

De forma simplificada, o medicamento atua reduzindo o efeito do “freio” genético que limita o crescimento ósseo. E embora não represente uma cura, pode alterar a trajetória da doença ao longo da infância, especialmente quando o tratamento é iniciado precocemente. “Quanto mais cedo a criança inicia, dentro da janela em que as epífises ainda estão abertas, maior é a oportunidade de acumular benefício ao longo da infância”, destaca o geneticista.

A discussão sobre a possível incorporação do vosoritide no SUS é sustentada por um corpo crescente de evidências científicas, incluindo uma meta-análise publicada liderada por pesquisadores brasileiros, sob a orientação de Dr. Paulo Zattar.

O estudo reuniu dados de vida real de 696 crianças em diferentes países, em contextos diversos, e confirmou os benefícios já observados em ensaios controlados. “Houve melhora do escore de altura após 12 meses, aumento médio da velocidade de crescimento anualizada de 1,82 cm/ano e melhora de proporcionalidade, com perfil de segurança favorável”, explica.

Para além dos números, esses dados ajudam a responder uma pergunta central para gestores públicos, já que o tratamento funciona fora do ambiente ideal dos estudos clínicos, segundo a pesquisa. “Para o gestor público, isso é essencial, porque a incorporação não depende apenas de eficácia em estudo idealizado, mas de segurança, reprodutibilidade e aplicabilidade no mundo real”, explica o geneticista.
Apesar de o crescimento ser um dos principais indicadores, o impacto do tratamento vai além da altura.

Ele toca diretamente a autonomia e a qualidade de vida dessas crianças. “Quando falamos de acondroplasia, não falamos apenas de estatura. Falamos de alcance funcional, mobilidade, independência nas atividades do dia a dia, adaptação ao ambiente, autoestima e inclusão”, afirma o médico.
Esse ponto tem ganhado força no debate público. Especialistas e famílias defendem que cada centímetro conquistado representa também mais independência e menos barreiras no cotidiano, da escola à vida adulta.

O peso do custo e o desafio do SUS
Se por um lado os benefícios são óbvios, por outro o custo do tratamento é um dos principais pontos de tensão. O vosoritide pode chegar a até R$ 1 milhão por paciente, o que impõe um desafio real para um sistema universal como o SUS.

“É evidente que o custo pesa, especialmente em um sistema universal com recursos limitados. Mas a análise não pode ser simplificada como ‘é caro, então não entra’. É preciso avaliar em qual população o benefício é maior, em que momento o tratamento gera melhor retorno clínico e como negociar condições de oferta mais sustentáveis”, pontua Zattar.

Ele também chama atenção para a necessidade de olhar além do curto prazo, justamente por se tratar de uma doença genética que acompanha o paciente desde a infância, olhar somente pra o custo imediato se torna insuficiente. “É preciso considerar ganho funcional acumulado, impacto sobre autonomia e o efeito social de ampliar acesso mais cedo”, ressalta.

Judicialização, desigualdade e o que está em jogo
Hoje, o acesso ao vosoritide no Brasil ainda é muito limitado e, na maioria dos casos, depende de decisões judiciais. Esse cenário cria um sistema desigual, em que o acesso ao tratamento não é garantido de maneira uniforme.

“Hoje, muitas famílias conseguem acesso apenas por judicialização, o que cria desigualdade entre quem consegue acionar a Justiça e quem não consegue”, explica Zattar. Segundo ele, a incorporação ao SUS mudaria esse cenário ao estabelecer critérios mais claros e universais.

Sem essa inclusão, o risco é manter, ou até ampliar, a desigualdade. “Em tratamentos de alto custo, quando não existe incorporação pública estruturada, o acesso acaba concentrado em quem tem maior capacidade financeira ou suporte jurídico”, relata.

O debate agora está nas mãos dos gestores públicos brasileiros. Mais do que uma decisão sobre um medicamento, o país discute que tipo de resposta quer dar para doenças raras. A incorporação do vosoritide pode marcar a transição de um modelo centrado no acompanhamento para outro capaz de modificar a trajetória da doença desde a infância.

Se aprovado, o impacto poderá ser sentido ao longo de gerações, não apenas em centímetros, mas em oportunidades, autonomia e qualidade de vida. “Estamos discutindo não apenas um medicamento, mas que tipo de resposta o sistema público quer dar para crianças com doenças raras no Brasil”, resume o Dr. Paulo Zattar.

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