Meu povo, eu juro que eu estava tentando viver um minuto de paz, tipo gente normal, olhando vitrine, fingindo que a vida é leve, e aí eu tropeço nessa história e quase derrubo meu café. Um milhão por mês. Um milhão. Tem gente pedindo aumento de vale transporte e, no outro lado do balcão do Brasil, aparece um sujeito apelidado de Sicário recebendo salário de estrela para tocar um setor que, segundo a Polícia Federal, funcionava como o lado clandestino do império do banqueiro Daniel Vorcaro.
Na vitrine, você já conhece o roteiro. Foto com executivo engravatado, papo de banco, pose de quem manda no futuro. Só que, no bastidor, a PF descreve outra estrutura, com um núcleo chamado de Turma, dedicado a monitorar e intimidar quem virasse problema. Meu bem, isso é a versão sombria daquele organograma bonito que a gente vê em apresentação, só que aqui a planilha parece ser de gente.
O Sicário, segundo a investigação, era o gerente geral desse departamento. Recebia a demanda, distribuía tarefa, controlava repasse, cobrava mensal, falava de bônus para os meninos, tudo com uma língua de escritório que dá arrepio porque o “produto” descrito ali era perseguição e pressão em cima de pessoas. E aí você me pergunta, Kátia, como é que isso aparece. A própria narrativa aponta que os repasses estariam mascarados em contratos e pagamentos fracionados, como se fosse rotina corporativa. Rotina corporativa, só que com paranoia, medo e lista negra.
E o ponto que deixa a história ainda mais séria, meu amor, é quem entraria no alvo. A apuração citada fala em ex-funcionário, concorrente, servidor, jornalista, aquele pacote completo de gente que incomoda porque pergunta, cobra, denuncia, disputa. A PF, inclusive, descreve conversas em que surge a ideia de “resolver” na marra, o tipo de frase que não é bravata de bar, é sinal de risco real para quem está do lado de fora fazendo o trabalho dele.
Eu fico pensando no efeito disso, na vida real. Porque o objetivo de um grupo assim não é ganhar discussão, é calar. E calar tem método. Tem rotina. Tem gente paga para isso. E, se a investigação estiver certa, teve até cargo, salário e hierarquia, como se o medo fosse só mais uma meta.
Aí vem o capítulo que parece cena de série pesada, daquelas que você pausa e respira. Relatos apontam que, após prisão, o Sicário teria tentado tirar a própria vida sob custódia e acabou internado em estado gravíssimo. Eu li isso e fiquei com aquele gelo na nuca, porque é o tipo de desfecho que não apaga nada, só mostra o tamanho do buraco em que a história entrou.
Agora, meu povo, segura essa. Se a Justiça conseguir costurar mensagens, transferências e decisões, o que aparece não é fofoca de corredor, é a descrição de uma máquina paralela. E eu, Kátia Flávia, que adoro um bastidor, te digo com a mão no coração e a outra no celular, isso não é bastidor divertido, é bastidor que dá medo.