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Kátia Flávia
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Vanessa da Mata vai a Harvard falar do futuro do Brasil e com ingresso esgotado porque prestígio lota auditório

A musa foi convidada pela Brazil Conference para palestrar em Harvard, nos Estados Unidos, na 12ª edição do evento, que acontece de 27 a 29 de março e discute “O Futuro do Brasil: Transformando Desafios em Progresso”.

Kátia Flávia

25/03/2026 13h30

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A artista brasileira integra a programação da 12ª edição da conferência, maior encontro organizado por estudantes brasileiros nos Estados Unidos (Foto: Divulgação)

Eu estava num hotel em Milão, entre uma ligação atravessada, um retoque estratégico no cabelo e aquele gole de uísque energético que a Europa finge não julgar, quando li essa notícia e achei um luxo com substância. Vanessa da Mata, que já tem carreira, repertório, público e estofo de sobra, foi chamada para falar em Harvard pela Brazil Conference. E não foi para fazer figuração de brasileira talentosa em vitrine estrangeira, não. Foi para entrar numa discussão sobre futuro, transformação, cultura, impacto social e pensamento de país. A conferência reúne estudantes brasileiros nos Estados Unidos, acontece em Harvard e no MIT, e já virou um dos fóruns mais prestigiados para discutir o Brasil fora do Brasil. Vanessa entra nessa roda como palestrante e também como mediadora de um painel do programa Cultura em Ação. Chique, relevante e muito bem colocado.

No factual, está tudo muito redondo. A Brazil Conference escolheu Vanessa para integrar a programação de 2026 com o tema “O Futuro do Brasil: Transformando Desafios em Progresso”. A organização vende a presença dela como um reconhecimento da cultura como força estruturante do desenvolvimento social e econômico. A própria Vanessa reforça isso ao dizer que a cultura é um pilar de identidade, resistência e transformação social, e que usa a música para tratar de temas que precisam ser debatidos. No comunicado, ainda lembram que ela vive uma fase internacional intensa, com a turnê “Todas Elas”, agenda em cidades brasileiras, planos para datas nos Estados Unidos e na Europa, além da escrita de um novo livro. Ou seja, não chamaram uma cantora para enfeitar palco acadêmico. Chamaram uma artista que pensa, produz, circula e sustenta discurso.

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A participação de Vanessa está marcada para o domingo, último dia do evento.(Foto: Divulgação)

No bastidor digital, esse tipo de notícia costuma produzir uma fauna deliciosa. Tem o povo que aparece correndo para postar print com legenda patriótica, tem a turma que aplaude a artista e tem também os vigilantes da pureza temática, aqueles que sempre agem como síndicos do prestígio alheio. Uns fingem que não viram porque Harvard ainda desperta recalque fino em muita gente. Outros tratam convite internacional como se fosse milagre e esquecem que Vanessa tem trajetória consolidada há muito tempo. E eu aposto meu nécessaire europeu que, nos feeds mais atentos, essa notícia ainda vai render uma daquelas discussões charmosamente tensas sobre quem o Brasil escolhe para representar sua inteligência fora do país. Sempre aparece alguém querendo separar cultura de pensamento, como se música fosse um adereço simpático e não uma ferramenta real de leitura social. A internet adora esse papel de quem comenta com superioridade e curte escondido.

A minha leitura maldosa, com brilho labial e cérebro funcionando, é simples. O convite para Vanessa da Mata mexe com uma hierarquia muito antiga e meio mofada, aquela que aceita artista no palco para cantar, mas torce o nariz na hora de vê-la falando como formuladora de pensamento. Só que Vanessa carrega uma obra que conversa com desigualdade, afeto, identidade, Brasil profundo, sofisticação popular e circulação internacional. Ela encaixa perfeitamente numa conferência que quer discutir futuro do país sem ficar restrita ao economês de gravata ansiosa. E a Brazil Conference fez um movimento inteligente ao puxar cultura para o centro da conversa. Porque país nenhum se explica só por indicador, planilha e promessa de inovação em auditório refrigerado. País também se entende por linguagem, repertório, imaginação, conflito e sensibilidade. E Vanessa tem isso na voz, na trajetória e agora, oficialmente, no púlpito.

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Vanessa da Mata representa uma geração de artistas que dialoga com múltiplos públicos, transita entre o popular e o sofisticado (Foto: Divulgação)

No fim, eu achei foi pouco. Vanessa em Harvard falando de Brasil faz todo sentido, e quem estranhar talvez esteja acostumado demais a achar que pensamento só vale com crachá sisudo e PowerPoint triste. Enquanto isso, a artista vai lá, lota o debate e ainda lembra, com a maior elegância, que tem gente que canta melhor do que muito doutor explica.

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