Neymar pode ser declarado persona non grata em Belém depois da confusão com dirigentes e torcedores do Remo no Estádio Mangueirão. A vereadora Marinor Brito, do PSOL, anunciou que pretende apresentar um projeto na Câmara Municipal para tornar o atacante do Santos oficialmente indesejado na capital paraense após as provocações feitas na Copa do Brasil.
Eu estava saindo do Can Pou Bar, em Ibiza, com os óculos escuros na mão, a conta paga e aquele fim de tarde dourado tentando fingir que o mundo era civilizado, quando chegou o vídeo do Neymar gritando “eliminado!” no túnel do Mangueirão. Minha filha, o homem não consegue só classificar. Ele precisa transformar uma assistência em ata de ocorrência emocional.

A confusão aconteceu depois da vitória do Santos por 1 a 0 sobre o Remo, resultado que colocou o time paulista nas quartas de final da Copa do Brasil. Neymar entrou no segundo tempo, participou diretamente do lance decisivo e deu a assistência para Rony marcar o gol da classificação. Até aí, era noite de protagonista. Depois veio o Neymar extracurricular.
Nas imagens que circularam nas redes sociais, o camisa 10 aparece perto da zona mista provocando integrantes do Remo. Ele grita “eliminado!” na direção de dirigentes e torcedores, enquanto as delegações estão separadas por grades. Uma pessoa com camisa do clube paraense reage apontando para o jogador e dizendo: “Tu é um bosta.”
Eu parei na calçada do bar nessa hora, porque a cena tem aquele tempero de futebol brasileiro em estado bruto: grade separando adulto de adulto, jogador milionário berrando provocação, dirigente subindo o tom, todo mundo gravando e ninguém lembrando que tinha acabado de terminar uma partida importante.
O presidente do Remo, Antônio Carlos Teixeira, o Tonhão, não economizou na resposta. Em entrevista ao Portal O Fluxo, ele detonou Neymar e chamou o atacante de “vagabundo”. “Uma grande campanha. Agora, sentimento de ser prejudicado, o Santos não precisa disso. E esse vagabundo desse Neymar, que é idolatrado por um bando de criança, que fez as palhaçadas dele aqui, ainda veio provocar”, afirmou.
Tonhão foi além. “Então, a gente é culpado de idolatrar um bando de vagabundo como um cara desse”, completou. Pronto. A partir daí, a classificação virou crise diplomática futebolística. Santos nas quartas, Remo eliminado e Neymar quase inaugurando a categoria “embaixador do climão” em Belém.
A vereadora Marinor Brito entrou na treta e afirmou que vai propor o título de persona non grata ao jogador. “Isso não é rivalidade esportiva, isso é prepotência de quem acha que seus bilhões na conta lhe dão o direito de humilhar os outros. Aqui, arrogância de bilionário não é bem-vinda”, escreveu.
Eu já estava entrando no carro, ajeitando a bolsa no banco, quando li a segunda pancada da vereadora. “Nossa terra não é palco para prepotência de milionário. O que ele fez com o jogador do Remo não foi rivalidade, foi arrogância pura. Não sabe nem o nome de quem está jogando do outro lado e ainda debocha. Time do Norte, time do povo paraense, não é motivo de deboche para ninguém”, declarou.

A fala da parlamentar também resgata outra cena que irritou torcedores do Remo. No primeiro jogo das oitavas, na Vila Belmiro, Neymar discutiu com o volante Edson Fernando e olhou para o nome na camisa do adversário, gesto interpretado por muitos como deboche, como se não soubesse quem era o jogador. Segundo torcedores, algo parecido já teria ocorrido em abril, com o meia uruguaio Diego Hernández, então no Remo.
Agora, a classificação do Santos ficou em segundo plano diante da confusão. Neymar foi decisivo em campo, mas saiu do Mangueirão de novo como notícia pela postura fora da bola. A Copa do Brasil segue para o Santos, o Remo lambe a eliminação em casa e Belém pode transformar o camisa 10 em visitante oficialmente indigesto. Eu, sinceramente, nunca vi alguém brigar tanto com a própria vitória.