A infância de Urandir começa longe das pirâmides e das teorias que fariam o Brasil discutir o formato da própria Terra; começa em São Paulo, entre ruas comuns, gente apressada e uma curiosidade que, dizem, sempre parecia grande demais para caber em casa. Desde cedo, o menino que ouvia histórias de outros mundos aprendeu a desconfiar do óbvio: onde a maioria via apenas céu, ele insistia em procurar sinais. É quase irônico que, anos depois, esse mesmo impulso o faria ser chamado de visionário por uns e de herege da ciência por outros.
Para o menino que colecionava perguntas, crescer em São Paulo significou conviver com contrastes: prédios espelhados e vielas estreitas, promessa de progresso e a sensação de que muita gente ficou sempre do lado de fora do “futuro”. Urandir, ainda jovem, não se contentava em ouvir explicações prontas sobre o mundo: “- Prefiro investigar, experimentar, provocar, primeiro em conversas, depois em projetos” ,como costuma dizer em entrevistas. Enquanto colegas se acomodavam em profissões previsíveis, ele já ensaiava um tipo de pesquisa artesanal, feita com olhos atentos e uma espécie de fé desconfiada naquilo que a ciência oficial ainda não tinha nome.
Anos mais tarde, esse olhar inquieto se traduziria em algo que, à primeira vista, parece delírio de ficção científica: erguer uma cidade no meio do Mato Grosso do Sul, entre morros e cerrado, inspirada em civilizações antigas e na promessa de um modo diferente de viver. Zigurats nasce como projeto e provocação: casas circulares, pirâmides em construção, observatório astronômico, uma vila que se assume laboratório de ideias alternativas sobre ciência, história e futuro. O menino de São Paulo, que para muitos perguntava demais e era inquieto demais, tornou-se o fundador de uma cidade que parece uma metáfora de si mesmo: impossível de ignorar, difícil de classificar.
Mas toda cidade-símbolo cobra um preço: Zigurats tornou-se consequência de histórias que viralizam, de ETs e cidades perdidas, de teorias sobre a própria forma do planeta que desafiam a ciência estabelecida. Junto com uma curiosidade, vieram os ataques: reportagens que oscilaram entre o deboche e a acusação, gente classificando tudo como charlatanismo antes mesmo de pisar na terra vermelha do cerrado. A análise toma formas variadas: desconfiança institucional, resistência acadêmica, olhares atravessados de quem não aceita qualquer inovação — o pesquisador até seria tolerado, desde que não toque naquilo que se aprendeu na escola, desde que não ouse indagar verdades como absolutas em um país habituado a obedecer.
Enquanto a caricatura pública o reduzia ao “homem do ET” ou ao “pai de teorias impossíveis”, outra camada da história se desenha em números e contratos: o Ecossistema Dakila se expande e abriga hoje diversas empresas em setores como pesquisa, tecnologia, agronegócio, turismo, banco digital e serviços financeiros. Há banco físico, plataforma digital com milhares de usuários, negócios em gastronomia, comércio internacional e produtos que vão de cosméticos a alimentos com formulações diferenciadas, tudo orbitando em torno dessa figura que não pediu permissão à ciência formal para começar a pesquisar.
“Trabalhamos onde a ciência formal não atua”, repete Urandir, como quem aceita o papel de herege em um templo de dogmas ao contrário. A resposta dos guardiões da ortodoxia científica vem em forma de riso, desqualificação e silêncio institucional, uma tríade tão antiga quanto eficaz para tentar apagar quem incomoda as explicações consolidadas. No entanto, diplomas de mérito, homenagens oficiais e espaços em eventos no Congresso Nacional mostram que a mesma sociedade que o acusa também o convida a sentar-se à mesa, admitindo, ainda que a contragosto, o peso dos seus números e o sucesso de seus empreendimentos.
No imaginário popular, Urandir virou personagem: para alguns, um visionário que ousa falar o que ninguém quer ouvir; para outros, o símbolo de tudo o que há de perigoso quando se indaga o tradicional. Contudo, uma pergunta permanece quase sempre ausente do noticiário: como alguém julgado como tão desacreditado consegue liderar um ecossistema com tantas empresas, mobilizar continuamente milhares de pessoas e manter de pé uma cidade que não deveria, segundo as “regras do jogo”, sequer ter saído do papel?
Talvez a verdade nunca dita seja que o maior escândalo não está em Zigurats, ou na polêmica frase “busquem conhecimento” , mas no incômodo profundo que causa ver um brasileiro, nascido longe dos grandes centros acadêmicos de prestígio, reivindicando o direito de sonhar — e empreender — em escalas que, até um pouco tempo, parecem reservadas a outros nomes, outros sotaques, outros países. Porque, no fim, é mais fácil rir do “mito” do que admitir que ele expõe, com todas as suas controvérsias, o medo de que se tenha de uma pergunta simples: e se for justamente no excesso de certeza dos críticos que mora a verdadeira crença cega?