Estava eu aqui em Ostuni, ouvindo o vento que desce do Adriático varrer as ruas brancas dessa cidade que parece pintada à mão, quando minha fonte me ligou com uma informação que fez o meu café esfriar de susto na mesa: a TV Brasil, a emissora pública que todo mundo subestima na segunda, está dando aula de estratégia de grade para o mercado inteiro com o Brasileirão Feminino. Aula. De. Grade.
Os números do Ibope não deixam dúvida. Nas cinco primeiras rodadas da Série A1, mais de 1 milhão de pessoas foram alcançadas em dez partidas transmitidas pelo canal. O clássico Bahia x Vitória, exibido em 16 de março, registrou média de 1,11 ponto em Salvador com pico de 2,05. Em Brasília, Corinthians x América-MG chegou a 1,21 de pico, e Juventude x Flamengo marcou 1,01. A emissora chegou ao quarto lugar no ranking de audiência da TV aberta no Rio em três rodadas, e na capital federal essa proeza se repetiu seis vezes.


O detalhe que a Kátia não deixa passar é que a TV Brasil não está sozinha nisso. A Rede Nacional de Comunicação Pública, a RNCP, joga junto com 165 emissoras de televisão e outras 168 de rádio espalhadas pelo Brasil, amplificando cada jogo para regiões que a TV paga nem sonha em alcançar. E para fechar o pacote institucional com fita, a EBC e a Petrobras lançaram em março o Prêmio TV Brasil Petrobras para Elas, que chega como o principal reconhecimento anual do futebol feminino brasileiro. A presidente Antonia Pellegrino lembrou que desde 2024 a TV Brasil é o único canal aberto a transmitir todas as fases do campeonato, e que isso faz parte de um processo de reparação histórica. A modalidade ficou décadas proibida no Brasil. Décadas.
A leitura da Kátia é a seguinte: enquanto as grandes emissoras comerciais ficam calculando se futebol feminino “dá ibope”, a TV pública foi lá, apostou, transmitiu, e agora está subindo no ranking com consistência crescente ao longo das rodadas. Isso não é coincidência, é estratégia. E uma estratégia que vai ficando mais forte à medida que o campeonato avança, com a Copa do Mundo Feminino 2027 no Brasil já movimentando reuniões de alto nível no Ministério do Esporte.
1 milhão de pessoas em dez jogos, quarto lugar no ranking em Brasília seis vezes, Petrobras patrocinando prêmio anual, Copa do Mundo chegando em 2027 e a TV Brasil tocando o barco com uma calma que deveria envergonhar qualquer diretor de programação que ainda acha que futebol feminino é “nicho”. Nicho, minha gente, é o que a TV aberta está perdendo toda segunda-feira às 20h45.