Quinta-feira cedo, eu ainda estava no segundo café lá em casa no Cosme Velho quando me ligou uma amiga de dentro da Globo com um recado em forma de pergunta: “Você já sabe da novidade de A Viagem?” Claro que eu não sabia. Claro que em dois minutos eu já sabia tudo.
A emissora está preparando uma adaptação da clássica novela espírita de Ivani Ribeiro em formato de filme. Carolina Dieckmann assume o papel de Diná, que Christiane Torloni eternizou em 1994. Pedro Novaes vive Alexandre, o espírito obsessor que Guilherme Fontes construiu com aquela cara de tormento que não sai da memória de quem assistiu. Rodrigo Lombardi pega Otávio Jordão, que foi de Antonio Fagundes. E Lucinha Lins, que estava na novela original como Estela, volta ao universo de A Viagem como Dona Maroca, numa participação que o mercado descreve como “afetiva” e que na prática significa que todo mundo vai ter que buscar lenço.

Jaqueline Vargas assina o roteiro e Henrique Sauer dirige. As gravações estão previstas para maio, sem data de estreia confirmada. Para quem não lembra: na trama, Alexandre é condenado por roubo seguido de homicídio, tira a própria vida na prisão e passa a atormentar, do plano espiritual, todos que considera culpados pelo seu destino. Diná, irmã dele, tenta protegê-lo e acaba envolvida com Otávio, um dos principais alvos da vingança. Amor, culpa, espiritismo e muita cena de médium em transe.
O timing não é inocente. A Globo anda apostando em propriedades com tração nostálgica desde que percebeu que memória afetiva é um ativo de marketing que nenhuma série de streaming original consegue comprar. A Viagem permaneceu no imaginário coletivo por décadas porque misturou fé popular, drama familiar e aquela estética televisiva dos anos 90 que hoje virou objeto de culto nas redes. Trazer Lucinha Lins de volta enquanto renova o elenco principal é um gesto calculado para agradar duas gerações ao mesmo tempo, e a Globo sabe muito bem o que está fazendo.
Se o Alexandre obsessor der metade do trabalho emocional que deu em 1994, a emissora tem nas mãos um acerto de público garantido. O que fico curiosa para ver é se uma história tão densa, com espírito vingativo, médium em transe e amor além-túmulo, vai caber num filme sem virar o que o mercado chama de “fiel ao original” e o público chama de corrido.