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Kátia Flávia
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Tony Bellotto rejeita a ideia de lutar contra o câncer e surpreende

Guitarrista dos Titãs, de 66 anos, fala sobre a cirurgia, a difícil recuperação e por que prefere negociar uma convivência pacífica com a doença.

Kátia Flávia

10/10/2026 8h24

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O guitarrista dos Titãs contou como atravessou o período entre a descoberta, a cirurgia e a retomada da rotina

Gente, eu estava aqui em Sintra, tentando organizar minha vida entre uma bica, o céu nublado e uma agenda que parece ter sido escrita por alguém que me odeia, quando voltei a uma entrevista de Tony Bellotto que merece muito mais atenção. E olha que eu, que falo pelos cotovelos, fiquei pensando no que esse homem disse. O guitarrista dos Titãs, que enfrenta um câncer de pâncreas diagnosticado em 2025, apresentou uma maneira muito particular de lidar com a doença. E confesso que a reflexão me pegou.

Aos 66 anos, Tony contou ao jornalista Matheus Leitão, no programa Que Dia, do Metrópoles, que continua convivendo com o diagnóstico, mesmo depois de passar por uma cirurgia para retirar o tumor e enfrentar um tratamento delicado. A recuperação não foi simples. Ele perdeu peso, precisou interromper compromissos profissionais e ainda trabalha para recuperar sua condição física. Mas o que chamou minha atenção foi a maneira como ele decidiu encarar tudo isso.

Segurem essa informação, minhas queridas. Tony, que se declara ateu e estudou zen-budismo na adolescência, questiona a expressão tão utilizada quando alguém recebe um diagnóstico de câncer: a ideia de que é preciso entrar em guerra contra a doença. Pacifista, ele prefere pensar numa espécie de negociação, numa convivência possível com aquilo que está enfrentando. É uma reflexão pessoal sobre o adoecimento, sem qualquer pretensão de substituir os tratamentos médicos. E, convenhamos, ouvir um roqueiro falar de paz em vez de guerra tem uma força danada.

O guitarrista também falou sobre a importância de Branco Mello, seu companheiro de Titãs, que enfrentou um câncer de garganta. A experiência do amigo ganhou outro significado depois que Tony recebeu o próprio diagnóstico. São dois músicos que dividiram palcos, gravações e décadas de história do rock brasileiro e que também passaram a compartilhar experiências relacionadas ao tratamento de doenças graves.

Desde que descobriu o câncer, em março de 2025, Tony precisou reorganizar a própria rotina. Afastou-se temporariamente dos palcos, passou por cirurgia e enfrentou uma recuperação que descreveu como difícil. Aos poucos, retomou atividades profissionais, incluindo apresentações musicais e a escrita, enquanto segue sob acompanhamento médico. Ele não anunciou estar curado, e esse detalhe precisa ser respeitado.

Agora, vou dizer uma coisa. Vivemos numa época em que até o sofrimento precisa vir embalado numa frase motivacional, com trilha sonora emocionante e legenda de superação. Tony fez uma escolha diferente. Falou sobre o medo, a dificuldade e a necessidade de aprender a conviver com uma realidade que não escolheu. Sem transformar a própria experiência numa obrigação de parecer forte o tempo inteiro.

E talvez seja justamente aí que esteja a declaração mais interessante dessa entrevista. O homem que passou décadas fazendo barulho com uma guitarra agora provoca uma reflexão sobre a maneira como falamos de uma doença grave.

Eu continuo aqui em Sintra, com meus compromissos atrasados e a cabeça naquela conversa. Porque Tony Bellotto levantou uma questão que ultrapassa o universo dos Titãs: será que toda pessoa que enfrenta um câncer precisa ser chamada de guerreira, mesmo quando ela própria prefere não enxergar sua vida como uma batalha?

Tony não está pedindo uma guerra. Está tentando encontrar uma maneira de continuar vivendo.

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