Tiago Leifert colocou fogo numa discussão que já envolvia Neymar, a árbitra Edina Alves e um vídeo de leitura labial que viralizou nas redes. O apresentador criticou os chamados “dubladores de internet” e disse que esse tipo de conteúdo pode ser divertido, mas não deveria ser tratado como prova em investigações ou julgamentos esportivos.
Eu estava na sala de jantar polindo a travessa de prata que só sai do armário em domingo de almoço quando vi o vídeo. Parei com o pano na mão. Porque, de repente, não era mais Neymar discutindo com a arbitragem. Era Tiago Leifert questionando a leitura labial, o especialista respondendo e todo mundo disputando quem tem autoridade para dizer o que saiu da boca do craque.
“Eu tô vendo dublador que dubla cara de costas”, disse Tiago em seu canal. “Acho divertido, mas não pode virar uma parada forense.” O apresentador citou justamente o caso envolvendo Neymar e Edina Alves, depois que uma leitura labial apontou supostas ofensas do jogador à árbitra durante Santos e Mirassol.
Tiago foi direto ao falar da repercussão do vídeo: “Parece que pegaram uma dublagem, acho que foi até do Neymar com a Edina, e querem já usar no STJD em tribunal. Pô, não pode, gente. Aí não”. A crítica dele não foi à fofoca de arquibancada em si, mas ao risco de uma interpretação virar prova com peso jurídico.

Só que Gabriel Velloso, responsável pelo vídeo, ouviu o recado e decidiu responder. “Se você estiver falando de mim, Tiago, eu queria que você apontasse um vídeo meu que eu fiz leitura labial de costas”, afirmou. E completou: “A partir do momento em que o Neymar comenta em um vídeo e você fala isso, vocês descredibilizam o meu trabalho para milhares de pessoas que não me conhecem”.
A travessa ficou brilhando, mas eu fiquei mais interessada nessa troca. Porque Velloso não aceitou ser chamado de dublador de internet. Ele disse que estudou leitura orofacial e que seu processo não se limita ao movimento da boca: leva em conta articulação, corpo, ritmo da fala, sotaque, contexto, ambiente e estado emocional da cena.
O próprio Velloso, porém, concordou com uma parte importante da fala de Tiago: seus vídeos não deveriam ser usados pelo STJD como prova. “Eu não quero prejudicar ninguém”, disse. O conteúdo divulgado por ele trazia o aviso de que era uma leitura técnica e interpretativa, com margem de erro e sem valor de transcrição oficial.
Neymar já havia contestado a interpretação de Velloso, dizendo que havia “muita coisa errada” no vídeo. O especialista rebateu e manteve que trabalha para chegar à maior precisão possível, mas reconhece que leitura labial não é ciência exata.

No fim, Tiago diz que não dá para transformar internet em perícia. Velloso diz que não quer ver o trabalho reduzido a uma dublagem inventada. Neymar nega a interpretação. E Edina Alves, que deveria estar só apitando um jogo, virou o centro de uma novela com jogador, jornalista, tribunal e leitura de lábios.
Guardei a travessa, alinhei os pratos na mesa e concluí que futebol brasileiro não precisa de muito para virar série de tribunal. Basta uma discussão em campo, um vídeo sem áudio e três homens querendo explicar exatamente o que aconteceu. A bola, coitada, ficou por último.