Tia Milena confessou que tem medo de ser esquecida depois do BBB26 e pediu uma chance na Globo com um programa infantil, e eu estava no Cosme Velho cometendo o crime doméstico de cortar a primeira fatia do bolo de laranja antes de ele esfriar. Sim, eu sei, ele desmonta. Sim, eu fiz mesmo assim. Foi nessa primeira garfada torta, com o celular apoiado entre o prato e a jarra de suco de melancia já fora da geladeira, que veio Milena dizendo: “Eu não sei o que vou fazer da minha vida sem vocês”. Minha filha, o bolo quase voltou para a forma sozinho.
A ex-BBB falou sobre o medo do fim da fama durante o Festival LED, em São Paulo. Finalista do BBB26 e uma das figuras mais comentadas da edição, ela admitiu que teme perder o espaço conquistado quando o público mudar de assunto, especialmente com a Copa do Mundo se aproximando.
“Eu não sei o que vou fazer da minha vida sem vocês. Porque eu sei que a Copa [do Mundo] está vindo aí e o hype [do BBB] vai acabar. Mas não acabem comigo, não, tá? Continuem comigo, porque eu sou entretenimento”, declarou Milena.

E aqui está a parte mais honesta da fala: ex-BBB sabe que a fama pós-reality é um corredor estreito, escorregadio e cheio de gente empurrando. Num dia a pessoa é trend, no outro está disputando publi de colágeno com ex-participante de três edições atrás. Milena, pelo menos, não fingiu plenitude. Assumiu o pânico com microfone na mão e carisma de recreadora tentando segurar uma excursão inteira no parque.
Milena saiu do BBB26 com R$ 150 mil, cerca de R$ 30 mil acumulados em provas e dinâmicas, além de um apartamento avaliado em R$ 270 mil. Ou seja: saiu melhor do que muita gente que entra em reality jurando estratégia e sai só com trauma, cancelamento e contrato de permuta. Mas dinheiro de prêmio não compra carreira pronta. Compra tempo. E tempo, na televisão, acaba mais rápido que camarim com ar-condicionado bom.
Durante a entrevista, ela também sugeriu um caminho: trabalhar com crianças. Recreadora infantil antes do BBB, Milena disse que gostaria de comandar um programa que tivesse contato real com o público infantil, não apenas uma atração em que aparecesse para apresentar desenhos.
“Um programa legal para mim seria ter criança ali comigo mesmo. Não um programa em que eu só vou apresentar desenhos”, explicou.

A ex-sister ainda brincou com a possibilidade de uma nova versão da TV Globinho, clássico da Globo que marcou gerações. “[Queria] ter uma plateia infantil, tipo um ‘De Frente com a Criança’, com uma criança me entrevistando ou eu entrevistando a criança. Eu gosto desse contato, entende? A gente poderia repaginar a TV Globinho… eu ia amar”, completou.
E quer saber? A ideia é menos absurda do que parece. Milena pode ter dividido opiniões no BBB26, mas tem timing, fala rápido, se joga sem medo do ridículo e entende criança como quem já sobreviveu a festa infantil com trinta pequenos, dois monitores e um pula-pula murchando no canto. Isso, meu amor, também é formação profissional.
O problema é que a Globo anda tratando programa infantil como se fosse móvel antigo guardado no depósito: todo mundo lembra com carinho, ninguém sabe se quer botar de novo na sala. Ainda assim, Milena sacou uma coisa importante. Se tentar virar apenas mais uma ex-BBB de publi, dança e presença VIP, some. Se grudar naquilo que já era dela antes do confinamento, pode achar um caminho.
O BBB26 deu palco, mas não dá garantia. A fama de reality é cruel porque parece enorme enquanto dura e minúscula quando a próxima temporada começa. Milena sabe disso. O desespero dela tem graça, mas também tem diagnóstico. Ela entendeu que entretenimento não sobrevive só de meme; precisa de formato, direção e alguma coisa para fazer quando o fandom desliga o mutirão.
No fim das contas, minha filha, Tia Milena está fazendo o que muito ex-BBB deveria fazer: pedindo emprego com conceito. Pode ser exagerada? Pode. Ansiosa? Muito. Mas ao menos não está vendendo mistério, nem fingindo que “está estudando propostas internacionais” enquanto espera um cupom de escova secadora. Ela quer criança, plateia, bagunça e Globo. A TV Globinho talvez não volte. Mas se voltar, já tem uma tia na porta com crachá imaginário, glitter na bolsa e medo real de ser esquecida.