Eu estava com a mala aberta em cima da cama do hotel em Ibiza, tentando decidir quais biquínis não voltam para o Rio, quando o telefone tocou em chamada de vídeo. Último dia de temporada, voo para Madri no fim do dia, e claro que a notícia ia me pegar assim, de cabelo molhado e sandália na mão. Do outro lado, minha fonte virou a câmera para a televisão e mandou: larga essa mala e olha isso.
Tàmires Assîs entrou na arena em Manaus como Cunhã-Poranga do Boi Garanhão e não escolheu enredo qualquer. Levou a Lenda de Edinaí, a guerreira indígena que, segundo a tradição amazônica, foi traída pelos próprios irmãos e lançada às águas. Por causa da bravura dela, Tupã a eternizou como ser encantado das águas: a Cobra Grande.

Cunhã-Poranga em tupi quer dizer mulher bonita, e no boi-bumbá é o item que carrega a força e a bravura da mulher indígena. Tàmires assumiu o posto no Garanhão oficialmente em março do ano passado, no lugar de Arleane, que deixou a agremiação por questão contratual antes mesmo de estrear. Antes disso ela já era rosto conhecido em Parintins como musa do Garantido, dançando ao lado do levantador de toadas David Assayag.

O Garanhão foi fundado em 1991, veste verde e branco e tem 14 títulos do Festival Folclórico do Amazonas na estante. A festa acontece na capital e vive à sombra de Parintins, coisa que manauara engole com sorriso torto de quem sabe que o negócio é grande e o resto do Brasil nunca reparou. Tàmires ainda montou camarote próprio na programação, recebendo influenciador, artista e convidado para assistir aos espetáculos e postar.
O país conheceu Tàmires pelo caminho mais barulhento, o namoro relâmpago com o campeão do BBB 24 e depois A Fazenda. Na arena ela aparece pelo caminho que veio muito antes disso, o boi, a toada, a pena, o folclore. E defendendo justamente a história de uma mulher jogada na água pelos irmãos que volta como o bicho mais temido do rio. Escolha de enredo é sempre recado. Esse chegou.