O retinoide funciona muito bem e, justamente por isso, se tornou um dos maiores fenômenos do skincare nas redes sociais nos últimos anos. O problema surge quando um ativo com décadas de evidências para acne, fotoenvelhecimento, textura e poros passa a ser tratado como produto universal, escolhido a partir de tendências incentivadas por influenciadores digitais.
“Ele funciona. E isso é raro no mundo do skincare, onde a maioria das promessas não resiste a uma boa metanálise. O retinoide tem décadas de evidência sólida. O problema é que a internet pegou um ativo com indicação clínica precisa e transformou em produto de prateleira, como se fosse hidratante. Evidência científica não significa uso universal, significa uso correto, na concentração certa, para a pele certa”, explica a dermatologista e membro titular da SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia), Andrezza Facci.

Para a médica especialista no cuidado integrado da pele, a popularização do ativo não deve ignorar a questão básica de que tratamento dermatológico não é receita pronta. Quem escolhe um retinoide porque ele viralizou pode estar tratando uma condição diferente do que a sua própria pele apresenta.
“Sem exame de pele, a pessoa está tratando o que viu no vídeo, não o que tem no rosto”, afirma Dra. Andrezza.
Entre os maiores riscos de fazer uso de retinoides sem avaliação dermatológica estão: irritação severa pela escolha inadequada de molécula ou concentração, combinações com outros ativos, fotossensibilização sem proteção solar apropriada e até o agravamento de condições não diagnosticadas, como dermatite ou rosácea.
Quando a irritação não é sinal de eficácia
Um dos equívocos mais comuns do uso de retinoide é interpretar vermelhidão, descamação ou ardência com sinais de que o produto “está funcionando”. Para Dra. Andrezza, isso pode levar a danos graves.
“Isso é um dos mitos mais perigosos que circulam. Uma leve descamação inicial pode, sim, fazer parte do período de adaptação. Mas vermelhidão intensa, ardência persistente, sensação de queimação, isso é dano de barreira cutânea, não eficácia. Retinoide não precisa doer para funcionar. Quando a pele ‘fala’ mais alto que o efeito estético esperado, é o sinal de que o protocolo está errado, não de que está indo bem”, alerta a médica.
A dermatologista esclarece que retinol, adapaleno, tretinoína e isotretinoína pertencem à família dos retinoides, mas têm diferentes níveis de potência, indicações e tolerância. Por isso, a escolha precisa considerar o objetivo e a capacidade de cada pele de tolerar o tratamento.
Uma avaliação dermatológica considera idade, sensibilidade, acne, fotodano, procedimentos recentes, outros tratamentos, condições de base e até a rotina do paciente. Gestação ou tentativa de gestação também precisa entrar na análise, já que contraindica boa parte da família dos retinoides.
O acompanhamento também pode evitar o abandono do tratamento após uma reação intensa. Segundo Dra. Andrezza, pacientes que começam com uma molécula ou concentração inadequada podem desistir de um ativo que, em outro protocolo, poderia trazer benefícios.
“Vejo isso toda semana: paciente que começou um retinoide potente demais, teve uma reação forte, ficou com medo e abandonou. Quando, com a molécula e a concentração certas, aquele mesmo ativo resolveria o problema dela. O acompanhamento médico existe justamente para titular a dose, ajustar a frequência, dar suporte de barreira cutânea quando necessário. Isso transforma um tratamento abandonado em um tratamento bem-sucedido”, relata a especialista.
Entre a evidência e a tendência
Nas redes, Dra. Andrezza recomenda que as pessoas fiquem atentas para diferenciar uma informação de skincare baseada em evidências científicas de modismo incentivado por influenciadores.
“Evidência é específica e cautelosa. Tendência é generalista e urgente.”
Para ela, o consumidor deve questionar se uma recomendação tem respaldo científico, se considera diferentes tipos de pele e se quem indica tem formação para avaliar aquela pele.
O alerta vale também para o envelhecimento. Em peles maduras e com fotodano, o retinoide pode integrar a estratégia, mas não resolve sozinho questões como colágeno, elastina, vascularização, pigmentação e textura. Em alguns casos, pode nem ser a melhor opção, como em peles muito sensibilizadas, rosácea ativa, gestação, após procedimentos invasivos recentes ou diante de problemas que exigem outra abordagem.
“Em peles muito sensibilizadas, rosácea ativa, gestação, uso recente de procedimentos invasivos, ou quando o problema real não é o que o retinoide trata, por exemplo, manchas de origem vascular, que exigem outra abordagem. A avaliação revela isso antes de qualquer prescrição, evitando meses de uso sem resultado ou, pior, com prejuízo”, informa.
Entre os erros de automanejo que chegam ao consultório estão combinar múltiplos ativos, começar o uso diário desde o primeiro dia, dispensar o protetor solar, reproduzir a rotina de alguém com pele diferente ou escolher a concentração mais alta em busca de resultado rápido.

Por isso, a médica usa uma expressão que resume sua principal recomendação: não virar cobaia de si mesma ou de uma tendência.
“O retinoide que funcionou para a influenciadora não foi escolhido pelo algoritmo, foi (ou deveria ter sido) escolhido para a pele dela. A pele de vocês não é a mesma. Antes de aplicar qualquer coisa da internet no rosto, procure uma avaliação dermatológica. O resultado que você quer não está na viralização do produto, está na personalização do tratamento. Cuidar da pele por inteiro começa com um diagnóstico, não com um vídeo”, aconselha.