Meus fofoqueiros , eu estava na minha digníssima missão antropológica de olhar o celular antes do café quando descubro que o universo resolveu juntar duas paixões minhas que raramente dividem a mesma sala de roteiro. Cinema autoral americano e sofrimento corintiano. Sim, porque ninguém menos que Spike Lee apareceu belíssimo, boné na cabeça e jaqueta do time, sentado em camarote na Neo Química Arena para assistir ao jogo do Sport Club Corinthians Paulista.
Meu amor, eu quase derrubei o café. Porque na minha cabeça imediatamente abriu um filme. Spike Lee em Itaquera. Spike Lee analisando a arquibancada brasileira. Spike Lee talvez pensando em enquadramento de câmera enquanto o estádio canta. Se alguém me dissesse que aquilo era teaser de documentário sobre futebol sul-americano eu comprava na hora.
Mas a vida, meus queridos analistas da fofoca esportiva, tem um senso de humor que faria roteirista de streaming pedir demissão.
Enquanto o diretor assistia à partida, o Corinthians levou 2 a 0 do Coritiba Foot Ball Club, resultado que não foi apenas derrota comum de campeonato. Foi quebra de tabu. O Coritiba nunca tinha vencido o Timão naquele estádio. Ou seja, Spike Lee chegou, sentou, colocou o boné do time e presenciou exatamente o dia em que a estatística resolveu mudar de ideia.
Eu parei, respirei e pensei: pronto, o homem virou personagem involuntário da narrativa.
Porque Spike Lee, para quem não vive mergulhado em cinema e cultura pop como esta colunista que às vezes lê psicanálise no aeroporto e fofoca no Uber, é um dos diretores mais importantes do cinema americano contemporâneo. Nascido em Atlanta em 1957, o cineasta construiu carreira discutindo tensões raciais e sociais nos Estados Unidos. Filmes como Malcolm X, Do the Right Thing e BlacKkKlansman, que inclusive rendeu um Oscar de roteiro adaptado, colocaram o nome dele em qualquer lista séria de autores do cinema moderno.
E aí está ele. Em Itaquera. Vendo um jogo do Brasileirão.
Eu juro que tentei imaginar o pensamento do diretor naquele momento. Talvez analisando a coreografia da torcida como se fosse cena de cinema. Talvez só curtindo o futebol mesmo. Spike Lee também é conhecido por frequentar jogos do New York Knicks em Nova York com a mesma devoção que brasileiro vai a estádio.
Só que, meus amores, o roteiro daquela noite decidiu virar drama esportivo.
O Corinthians perdeu. O tabu caiu. E o diretor de Hollywood virou testemunha ocular de um daqueles capítulos que torcida lembra por anos.
Eu fico imaginando a reunião de bar depois do jogo. Alguém batendo na mesa e dizendo: “Foi o Spike Lee que deu azar”.
Olha, eu não acredito nessas coisas. Mas confesso que se eu fosse corintiana raiz eu estaria olhando para aquele camarote com uma leve desconfiança cinematográfica. Porque coincidência assim tem cara de cena pós-créditos de filme.