Eu ainda estava aqui em Salerno processando a L’Oréal, o SailGP e a Zendaya que continua sem atender, quando chegou uma notícia que me fez largar o café e ficar dois minutos olhando para o teto com aquela expressão de quem está cansada de ver a mesma história se repetir. Simaria apareceu num evento. Só isso. E a internet transformou a presença dela em tribunal de corpo aberto ao público.
Simaria esteve no domingo, 12 de abril, na gravação do projeto “Meninos de Roça”, de Chitãozinho & Xororó, num haras em Jaguariúna, no interior de São Paulo. Ela está afastada dos palcos desde 2022, tem 43 anos, foi como convidada para prestigiar colegas, usou top cropped preto, minissaia jeans volumosa e botas de cano alto. Pronto. Isso é tudo que aconteceu. O que veio depois nas redes foi a enxurrada habitual: comentários sobre rosto, comentários sobre corpo, a palavra “irreconhecível” repetida com aquela intimidade de quem acha que conhece alguém por ter seguido no Instagram. Uma parte do público reagiu defendendo a cantora. Outra parte continuou vasculhando cada foto como se fosse laudo médico.
Nos bastidores digitais, o nome de Simaria voltou aos trending antes mesmo da gravação terminar. Perfis de sertanejo que nunca tinham postado sobre ela em meses foram rápidos em publicar chegada, look e reações. O engajamento disparou, mas o tipo de comentário que movimentou os números foi exatamente o mais problemático: o que reduz a presença de uma artista a um exercício coletivo de avaliação física, como se a única razão para ela aparecer em público fosse passar numa régua que ninguém pediu para existir.
Esse padrão tem histórico. Simaria já se posicionou antes sobre críticas ao próprio corpo, depois de ataques por fotos sensuais, dizendo publicamente que o corpo é dela e que não aceitaria ter o estilo policiado por padrões impostos por seguidores. A frase foi clara, direta e absolutamente ignorada por quem voltou a fazer exatamente a mesma coisa neste domingo. Juristas já sinalizaram que comentários com teor gordofóbico, misógino ou etarista direcionados a pessoas públicas podem configurar injúria e dar base para indenização por dano moral. Essa informação também circula há anos. E também continua sendo ignorada.
O que me irrita com precisão cirúrgica nessa história é que a gravação de Chitãozinho & Xororó foi pensada para celebrar raízes, trajetória e interior paulista, e a passagem de Simaria pelo evento foi reduzida, em grande parte das timelines, a um “antes e depois” que ela nunca pediu para protagonizar. Ela foi ver uma gravação de colegas numa segunda-feira à tarde e saiu do haras sendo pauta de corpo em toda a internet brasileira. Existe um cansaço legítimo nisso, e existe também uma mulher de 43 anos que só queria assistir a um show em paz.