Meus amados , eu precisei parar tudo quando bati o olho nessa notícia, porque o Rio resolveu fazer uma homenagem com cara de cena de filme e perfume de memória afetiva. A Alerj aprovou, em discussão única, o Projeto de Lei 4.019/24, de autoria do deputado Rosenverg Reis, para rebatizar a estação das barcas da Praça XV de Novembro, no Centro do Rio, como Estação Praça XV de Novembro Silvio Santos. Sim, meu amor, o homem que virou império da televisão agora pode virar também placa oficial de estação, e eu confesso que achei uma ideia com gosto de símbolo grande, popular e muito brasileiro.
A proposta ainda não está sacramentada. Depois da aprovação dos deputados estaduais, o texto segue para análise do governador do Rio, que terá até 15 dias úteis para sancionar ou vetar a medida. Ou seja, o roteiro já saiu da sala dos parlamentares, mas ainda precisa daquele carimbo final que decide se o tributo entra para a paisagem da cidade ou fica no meio do caminho. Eu, particularmente, já estava imaginando a cena inteira, povo chegando, anúncio ecoando e o nome de Silvio ali, monumental, como se o passado desse uma piscadinha para o presente.
E a homenagem tem motivo concreto, nada de delírio de camarote. A estação escolhida remete ao início da trajetória de Silvio Santos, antes de ele se tornar um dos maiores comunicadores do país. Segundo o texto, foi ali, nas barcas da travessia Rio Niterói, que ele trabalhou e instalou alto-falantes para animar os passageiros com músicas e anúncios. Em bom português, meu bem, o homem ensaiou o magnetismo com plateia muito antes de comandar auditório, aviãozinho e domingo de televisão. Aquilo ali já tinha cheiro de primeiro palco.
Segundo o deputado autor do projeto, a homenagem reconhece a história de um dos maiores nomes da comunicação brasileira. E faz sentido dentro da biografia do apresentador. Silvio Santos, que morreu em agosto de 2024 aos 93 anos, nasceu em 1930 e começou a vida profissional como camelô no Centro do Rio. Depois construiu um império no entretenimento, fundou o SBT em 1981 e virou um dos rostos mais populares da TV brasileira. Eu tive que sentar para processar, porque a trajetória dele tem aquele tipo de curva que roteirista adora e o público compra sem pestanejar.
A relação de Silvio com o Rio, aliás, rende um novelão inteiro. Ele nasceu na região central da cidade, na Lapa, serviu ao Exército na Escola de Paraquedistas, em Deodoro, trabalhou como camelô na Rua do Ouvidor e fez testes para a Rádio Guanabara. Passou em primeiro lugar, superando nomes como Chico Anysio, mas voltou a atuar como ambulante porque ganhava mais. Me diz se isso não tem cara de capítulo clássico de ascensão brasileira, com talento bruto, faro comercial e uma pitada de teimosia de quem já sabia que ia longe.
Depois, ainda atuou voluntariamente na Rádio Mauá, em Niterói, e também passou pela Rádio Tupi e pela Rádio Continental, já no fim da década de 1940. Foi no rádio, na rua, no improviso e no contato direto com gente comum que Silvio começou a lapidar a figura pública que depois conquistaria milhões. Eu adoro quando a notícia entrega contexto, porque aí o babado para de ser só burocracia e vira narrativa com peso, endereço e memória.
Caso o projeto seja sancionado, a estação das barcas ganhará um nome que junta geografia e mito popular. E aí, meus amores, o Rio transforma um ponto de passagem em marco afetivo de origem. Tem homenagem que parece protocolo. Essa aqui tem cara de reencontro da cidade com um de seus filhos mais barulhentos, mais carismáticos e mais inesquecíveis. Se tem ícone virando nome de estação, tem Kátia anotando.