Eu estava aqui em casa nesse domingo, de avental, mexendo a massa do meu bolo de laranja e tentando não derramar a tigela, quando meu celular começou a tremer de tanto print chegando. Larguei a colher, limpei a mão no pano de prato e fui ver o que era. Gente, eu quase deixo o bolo queimar.
O Festival LED, promovido pela TV Globo e pela Fundação Roberto Marinho com aquela cara de projeto cultural grandioso, abriu na sexta-feira, dia 15, com show gratuito de Marina Sena no Boulevard Olímpico, na zona portuária. O problema é que “gratuito” veio com senha limitada, espaço fechado e grade de contenção. Parte do público foi barrada por lotação, a fila virou empurra-empurra, as grades caíram e a segurança teve que intervir. Tudo filmado, tudo nas redes antes de a Marina terminar o set.
O DJ Zé Pedro colocou o dedo na ferida com uma elegância desconcertante: Marina Sena é uma das artistas de maior visibilidade do pop nacional, então por que convocar multidão para um espaço que não comporta essa multidão? Entrada franca que precisa de senha não é entrada franca, é teatro de inclusão com plateia selecionada. O pior é que o festival tem como tema educação criativa e democratização da cultura. Democratização com grade de contenção, imagina.
Nas redes, os vídeos circularam o fim de semana inteiro: fila dobrando o quarteirão, confusão na entrada, segurança correndo. A fanbase da Marina ficou dividida entre defender a artista, que não tem culpa nenhuma disso, e xingar a produção do evento. A Globo e a Fundação Roberto Marinho ainda não explicaram nada de forma satisfatória, o que, convenhamos, é a resposta mais reveladora de todas.
Olha, eu adoro a Marina Sena e torço pela menina de carteirinha. Mas chamar isso de festival para democratizar cultura e depois deixar o povo na rua, literalmente, é o tipo de contradição que só a TV Globo consegue entregar com pompa, circunstância e assessoria de imprensa.